Viktor Frankl
Viktor Emil Frankl, especialista em neurologia e psiquiatria, nasceu em Viena, a 25 de Março de 1905, de pais judeus: Elsa Lion e Gabriel Frankl. Pouco antes dos Estados Unidos da América entrarem na guerra, Frankl obteve o visto para partir, mas deparou-se com num dilema tremendo: partir, significava abandonar os seus pais ao próprio destino. Incapaz de tomar uma decisão, pediu desesperadamente “um sinal ao céu”. Ao regressar a casa, encontrou sobre a mesa um pedaço de mármore recolhido pelo seu pai nas ruínas da sinagoga, destruída pelos alemães. Era um fragmento dos Dez Mandamentos, e aqueles caracteres hebraicos esculpidos não deixavam qualquer dúvida: eram as palavras iniciais do mandamento “honra pai e mãe…” (Ex 20,21). A decisão foi imediatamente tomada: ficar junto dos seus pais e deixar o visto caducar. É nesta ocasião que conhece Tilly Grosser, enfermeira responsável e mulher dotada de “engenho natural” e “delicadeza de sentimentos”, com quem casou a 17 de Dezembro de 1941.
Somente nove meses depois do feliz dia da sua união, Frankl, a mulher e toda a família foram deportados para o campo de concentração de Theresienstadt, para depois serem transferidos para Auschwitz. Frankl conheceu o cativeiro, período que ele mesmo chamou de experimentum crucis. Consegue sobreviver ao tifo, que quase o levou à morte, e resistiu à fome, ao frio e à doença, graças a uma objectivação da dor, ou seja, à capacidade de se auto-distanciar daquele mundo que o circundava, unida àquela que ele define como “auto-transcendência”, compreendida como “orientação da existência humana para além de si, orientada para algo ou para alguém”.
Frankl constatou que os prisioneiros que perdiam a fé e a esperança no futuro punham em risco a saúde e a própria sobrevivência. Mas também viu que há o que ninguém pode tirar ao Homem, mesmo num campo de concentração: “a última das liberdades humanas – a escolha da atitude pessoal perante um conjunto de circunstâncias – para decidir o seu próprio caminho.” Mesmo “essa tríade trágica na qual se incluem a dor, a culpa e a morte, pode chegar a transformar-se em algo positivo, quando se enfrenta com a postura e a atitude correctas.”
No processo de evolução do pensamento frankliano, a experiência da deportação teve, portanto, uma função de “prova” e de confirmação experimental directa. A dolorosa vicissitude do internamento torna-se assim num extraordinário banco de prova para uma concepção antropológica destinada a re-humanizar a psicoterapia e as ciências humanas, a demonstração do facto de que em qualquer situação existencial se pode buscar um significado e que também as condições mais hostis podem ser transformadas numa vivência digna do espírito humano, numa ocasião de crescimento pessoal e maturação interior.
No dia 24 de Abril de 1945, os prisioneiros do Campo de Dachau foram libertados pelos americanos: finalmente Frankl podia regressar à sua cidade natal. Mas, se tinha passado o inferno, os lutos mais graves deveriam ainda feri-lo: no dia em que regressou a Viena teve a notícia que a esposa Tilly tinha morrido, só alguns dias mais tarde soube da morte da mãe numa câmara de gás em Auschwitz em 1944 e da morte do irmão numa mina de trabalhos forçados. Acrescentam-se notícias de muitos parentes e amigos. Frankl estava vivo e salvo, mas só.
Mesmo se Frankl se refere permanentemente à sua experiência no campo de concentração, não pretende encorajar o vitimismo, nem incutir uma espécie de “técnica da sobrevivência”, qual impossível panaceia. O que é certo é que este contexto oferece elementos de grande valor para uma verdadeira psicologia das situações-limite. O próprio Frankl afirma: “O campo de concentração […] foi um verdadeiro experimentum crucis. Aqui as capacidades propriamente humanas da auto-transcendência e do auto-distanciamento, sobre as quais chamei a atenção mais vezes nos últimos anos, foram verificadas e convalidadas em termos existenciais”.
Nos anos que se seguiram, escreve uma enorme quantidade de livros, ensaios e artigos, viajou acompanhado pela mulher, Eleonore Schwindt, com quem casou a 18 de Julho de 1947, para fazer conferências em inúmeras Universidades do Mundo.
Obrigado por uma progressiva doença dos olhos a reduzir as suas viagens ao estrangeiro e as suas lições – a última das quais aconteceu na Clínica Universitária de Viena em 21 de Outubro de 1996, quando tinha já 91 anos, Frankl morreu a 2 de Setembro de 1997, depois de ter dedicado toda a sua vida a ajudar os outros na busca de um sentido para a sua existência.
Ele próprio sintetizou o núcleo do seu pensamento: “O que é, na realidade, o Homem? É o ser que decide o que é. É o ser que inventou câmaras de gás, mas ao mesmo tempo é o ser que entrou nelas com passo firme, murmurando uma oração.”
N.N.
