Sunday, May 3, 2009

Nuno de Santa Maria Álvares Pereira

D. Nuno Álvares Pereira, inscrito no álbum dos Santos, no dia 26 de Abril de 2009, pelo Papa Bento XVI, é eloquente modelo de santidade para aqueles que hoje se envolvem nas coisas do mundo: políticos, militares ou empresários.

Nuno Álvares Pereira nasceu em 24 de Junho de 1360, muito provavelmente em Cernache do Bonjardim, sendo filho ilegítimo de fr. Álvaro Gonçalves Pereira, cavaleiro dos Hospitalários de S. João de Jerusalém e Prior do Crato, e de D. Iria Gonçalves do Carvalhal. Cerca de um ano após o seu nascimento o menino foi legitimado por decreto real, podendo assim receber a educação cavalheiresca típica dos filhos das famílias nobres do seu tempo. Aos treze anos torna-se pajem da rainha D. Leonor, tendo sido bem recebido na Corte e acabando por ser pouco depois cavaleiro. Aos dezasseis anos casa-se, por vontade de seu pai, com uma jovem e rica viúva, D. Leonor de Alvim. Da sua união nascem três filhos, dois do sexo masculino, que morrem em tenra idade, e uma do sexo feminino, Beatriz, a qual mais tarde viria a desposar o filho do rei D. João I, D. Afonso, primeiro duque de Bragança.
Quando o rei D. Fernando I morreu a 22 de Outubro de 1383 sem ter deixado filhos varões, o seu irmão D. João, Mestre de Avis, viu-se envolvido na luta pela coroa lusitana, que lhe era disputada pelo rei de Castela por ter desposado a filha do falecido rei. Nuno tomou o partido de D. João, o qual o nomeou Condestável, isto é, Comandante supremo do exército. Nuno conduziu o exército português repetidas vezes à vitória, até se ter consagrado na batalha de Aljubarrota (14 de Agosto de 1385), a qual acaba por determinar à resolução do conflito.
Os dotes militares de Nuno eram no entanto acompanhados por uma espiritualidade sincera e profunda. O amor pela eucaristia e pela Virgem Maria são a trave-mestra da sua vida interior. Assíduo à oração mariana, jejuava em honra da Virgem Maria às quartas-feiras, às sextas, aos sábados e nas vigílias das suas festas. Assistia diariamente à missa, embora só pudesse receber a eucaristia por ocasião das maiores solenidades. O estandarte que elegeu como insígnia pessoal traz as imagens do Crucificado, de Maria e dos cavaleiros S. Tiago e S. Jorge. Fez ainda construir às suas próprias custas numerosas igrejas e mosteiros, entre os quais se contam o Carmo de Lisboa e a Igreja de S. Maria da Vitória, na Batalha.
Com a morte da esposa, em 1387, Nuno recusa contrair novas núpcias, tornando-se um modelo de pureza de vida. Quando finalmente se alcançou a paz, distribui grande parte dos seus bens entre os seus companheiros, antigos combatentes, e acabo por se desfazer totalmente daqueles em 1423, quando decide entrar no convento carmelita por ele fundado, tomando então o nome de frei Nuno de Santa Maria. Impelido pelo Amor, abandona as armas e o poder para revestir-se da armadura do Espírito recomendada pela Regra do Carmo: era a opção por uma mudança radical de vida em que sela o percurso da fé autêntica que sempre o tinha norteado. Embora tivesse preferido retirar-se para uma longínqua comunidade de Portugal, o filho do rei, D. Duarte, de tal o impediu. Mas ninguém pode proibir-lhe que se dedicasse a pedir esmola em favor do convento e sobretudo dos pobres, os quais continuou sempre a assistir e a servir. Em seu favor organiza a distribuição quotidiana de alimentos, nunca voltando as costas a um pedido. O Condestável do rei de Portugal, o Comandante supremo do exército e seu guia vitorioso, o fundador e benfeitor da comunidade carmelita, ao entrar no convento recusa todos os privilégios e assume como própria a condição mais humilde, a de frade Donato, dedicando-se totalmente ao serviço do Senhor, de Maria —a sua terna Padroeira que sempre venerou—, e dos pobres, nos quais reconhece o rosto de Jesus.
Significativo foi o dia da morte de frei Nuno de Santa Maria, o domingo de Páscoa, 1 de Abril de 1431, passando imediatamente a ser reputado de “santo” pelo povo, que desde então o começa a chamar “Santo Condestável”.
Mas, embora a fama de santidade de Nuno se mantenha constante, chegando mesmo a aumentar, ao longo dos tempos, o percurso do processo de canonização será bem mais acidentado. Foi somente em 1894 que o Pe. Anastasio Ronci, então postulador geral dos Carmelitas, consegue introduzir o processo para o reconhecimento do culto do Beato Nuno “desde tempos imemoriais”, acabando este por ser felizmente concluído no dia 23 de Dezembro de 1918 com o decreto Clementissimus Deus do Papa Bento XV.
“Precisamos de figuras como Nuno Álvares Pereira: íntegras, coerentes, santas, ou seja, amigas de Deus e das suas criaturas, sobretudo das mais débeis. São pessoas como estas que despertam a confiança e o dinamismo da sociedade, que fazem superar e vencer as crises” – escrevem os Bispo Portugueses. N.M.

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Tuesday, March 31, 2009

Karl Rahner

“Ajudar as pessoas a serem crentes”

Karl Rahner, um dos mais importantes teólogos do século XX, nasceu a 5 de Março de 1904 em Freiburg im Breisgau (Alemanha) e morreu há 25 anos, 30 de Março de 1984 perto de Innsbruck (Áustria). Este sacerdote jesuíta passou grande parte da sua vida a ensinar nas cidades de Innsbruck, Munique e Münster. Foi o teólogo do Cardeal König, arcebispo de Viena, no Concílio Vaticano II.
A obra teológica de Karl Rahner compõe-se de mais de quatro mil títulos relacionados com dois campos do saber: Filosofia e Teologia. Dos seus estudos destacam-se as obras: “O Espírito no Mundo” (1939), “Ouvinte da Palavra” (1941), “Escritos de Teologia”, 16 volumes escritos entre 1954 -1984 e “Curso Fundamental da Fé” (1976).
Rahner vivia com a preocupação de ajudar as pessoas do seu tempo a serem crentes. Insurgia-se contra o que considerava a vulgaridade dum mundo do qual Deus se encontrava exilado. Empenhou-se num diálogo com os não crentes, assente em dois princípios. Primeiro, fazer sobressair aquela experiência humana fundamental que se afigura comum às duas partes do diálogo. Deve funcionar como plataforma de entendimento a partir da qual se possa prosseguir a troca dos argumentos. Segundo, reconhecer o que cada interlocutor é. O crente sente e pensa como crente; o não crente sente e pensa como não crente.
Para Rahner, a teologia não era um fim em si mesmo. Na sua obra “A Coragem do Teólogo”, afirma: «sempre fiz teologia com vista à pregação, com vista à pastoral». Paradoxalmente era um grande especulativo e alguém desejoso de transmitir a fé.
Para Rahner, a teologia compromete quem a elabora até ao fundo da sua experiência de Deus. Parte da fé do autor e visa a fé do leitor. É como homem de fé que Rahner se dirige ao ser humano actual com o intuito de o ajudar a crer. A dificuldade do discurso de Rahner parece ter mesmo a ver com a sua ligação íntima ao que ele vive interiormente. Surge com uma carga experiencial profunda que dificilmente será compreendida numa só leitura. Pode ser necessário reler uma ou mais vezes.
Rahner fez a sua experiência pessoal de Deus na escola dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. É aqui que se descobre a matriz do seu pensamento. Central neste é o conceito de “experiência transcendental”. Trata-se da abertura do ser humano ao mistério absoluto, que para os crentes tem um nome; chama-se Deus. É uma abertura de horizonte infinito que marca o ser humano de forma estrutural. Ora, a descrição de tal experiência vem na linha do que é dito na primeira meditação dos Exercícios Espirituais (nº 23): o ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus. Tem de se fazer indiferente em relação às coisas criadas, de modo a desejar e escolher o que mais o conduz para o fim que é o seu. A liberdade é, então, uma ideia importante em Rahner, tal como acontece nos ditos Exercícios. É preciso passar duma liberdade limitada a outra mais livre, duma liberdade amarrada a coisas finitas a outra que tem o próprio Deus como horizonte.
A teologia de Rahner tem consciência da fé que ainda está à procura de si mesma e deve sempre ter-se a si mesma diante dos olhos, sendo neste sentido uma genuína “Theologia viatoris” (teologia de peregrinos).
Rahner opera na teologia o que se chama «viragem antropológica». Ele não acha que se deva levantar a questão de Deus no abstracto; quer formulá-la a partir do ser humano enquanto tal. Tem todo o sentido que assim seja. A revelação de Deus dirige-se ao ser humano e tem de o atingir no mais profundo do seu ser. É, então, a partir deste que se há-de verificar a credibilidade da proposta cristã. Não convém fazer teologia à margem da experiência fundamental do ser humano. É arrancando desta que se deve construir um discurso sobre Deus. Rahner procura manter em ligação estreita o essencial do ser humano e o essencial do cristianismo. Aquele interpela este; este deve estar preparado para lhe responder. Por um lado, o ser humano carrega consigo uma pergunta com a qual não cessa de se confrontar: a pergunta do que ele próprio é no fundo. Ele tem essa questão; melhor ainda, ele é essa questão. Por outro lado, deve-se pensar aquilo que o cristianismo tem fundamentalmente a dizer como resposta à tal questão que o ser humano é em si mesmo.
Através sua Teologia Formal e Fundamental, Karl Rahner exigiu da teologia uma tarefa nova e fecunda e propôs-lhe uma nova base para a sua auto-compreensão: com o aprofundamento da lógica e da ética existencial deu uma contribuição importante para a moral fundamental; como co-editor de um Manual de Teologia Pastoral em vários volumes, empenhou-se na fundamentação teológica da Teologia Pastoral e dedicou uma série de estudos de grande importância às questões de fronteira entre a Dogmática e a Exegese.
A Teologia de Rahner confronta-se também com as exigências da moderna compreensão que as ciências modernas oferecem do mundo. Testemunho deste confronto são as obras: “Ciência como Confissão Religiosa”, “A Cristologia numa Visão Evolutiva do Mundo”, “A Auto-compreensão da Teologia diante das Exigências das Ciências Naturais”, “Cristianismo e o Homem Novo”, etc. Estes estudos confirmam com que seriedade e com que vigor Rahner tem em conta as exigências e os problemas do mundo moderno, procurando que a sua actividade teológica seja sempre um serviço à vinda de Jesus Cristo, Verbo Encarnado para os homens de hoje e de sempre.
Nas suas obras “Palavras Pronunciadas para o Silêncio”, “Sobre a Necessidade e a Bênção da Oração”, “Maria, a Mãe de Jesus”, “Ano Litúrgico”, os numerosos artigos publicados na Revista Geist und Leben, o terceiro volume de seus “Escritos de Teologia”, Karl Rahner mostra como a alta teologia deve saber levar a sério as “coisas pequenas” e a vida “concreta”. Em todas estas publicações, manifesta aquele imenso desejo: fazer os homens mais amantes, mais piedosos, oferecer-lhes uma ajuda para a sua auto-compreensão religiosa. N.M.

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Thursday, March 5, 2009

D. Hélder da Câmara

Numa das suas passagens por Portugal, D. Hélder da Câmara afirmou que “ninguém nasce para ser escravo ou mendigo”. No entanto, ao observar a realidade que o circundava, o antigo bispo de Olinda e Recife (Brasil) via que eles existiam e estavam bem perto do pastor.

A cidade de Fortaleza (Brasil) viu nascer, a 7 de Fevereiro de 1909, Hélder da Câmara. Filho de uma família pobre e numerosa (dos treze irmãos apenas oito conseguiram sobreviver), os pais deram-lhe o nome de um pequeno porto holandês: Hélder. Aos 14 anos entrou no Seminário diocesano da cidade natal (Prainha de São José), sendo metade das despesas pagas pela Obra das Vocações Sacerdotais.
Recebeu a ordenação sacerdotal em 1931 e, cinco anos depois, foi enviado para o Rio de Janeiro, onde se tornou animador da Acção Católica Brasileira e, posteriormente, seu assistente nacional. Nos ouvidos ressoam-lhe palavras antigas do pai: “Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos.”
Apesar de ter ficado conhecido como ícone da paz e irmão dos pobres, nos primeiros tempos de padre esteve ligado ao movimento «Acção Integrista Brasileiro», próximo das teses de Mussolini e do corporativismo português. Aos olhos de alguns era uma «persona non grata». Mais tarde, D. Hélder da Câmara explica esse episódio: “Participei num movimento de que estava convencido. O grande combate era entre o Este e o Oeste, os Estados Unidos e a União Soviética”. E acrescenta: “Mas depressa me apercebi que mais grave do que essa luta era a que se travava entre o Norte e o Sul”.
A Segunda Guerra Mundial e o agravamento da situação social no Brasil reconduziram D. Hélder da Câmara ao lugar de líder da contestação social e religiosa no Brasil. Em 1952 é nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro pelo papa Pio XII.
Poucos anos antes da sua nomeação trabalhou na Nunciatura Apostólica do Rio e, através de contactos directos com Monsenhor Montini (futuro Papa Paulo VI), conseguiu que a Secretaria de Estado do Vaticano aprovasse a constituição da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), sendo precursora das Conferências Episcopais criadas, mais tarde, pelo II Concílio do Vaticano.
Depois da aprovação da CNBB, D. Hélder propõe ao Vaticano a fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). A autorização chegou em 1955, acumulando D. Hélder Câmara o cargo de Secretário-Geral da CNBB e Vice-presidente da CELAM.
Paralelamente à dinamização destes dois organismos, o prelado brasileiro empenhou-se também no campo social. Em 1956, fundou a Cruzada S. Sebastião (destinada à solução dos problemas habitacionais nas favelas) e, três anos mais tarde (1959) criou o Banco da Providência (entidade de assistência social para os casos de miséria absoluta).
Em 1964, foi nomeado arcebispo de S. Luis do Maranhão e meses depois é enviado para Olinda e Recife, onde permanecerá, como bispo residencial, durante vinte anos. “Aqui eu sonhei com uma obra em que pudesse trabalhar não para o povo mas com o povo” - sublinhou na altura. Preocupa-se com o problema do desenvolvimento e da pobreza em todo o nordeste brasileiro. A sua voz profética ecoava, apesar das perseguições que lhe moveram.
Em 1968, o pastor daquele território eclesial publicou o livro «Revolução dentro da Paz». Dois anos depois, uma campanha difamatória impede-o de receber o Prémio Nobel da Paz. Foi acusado de demagogo, exibicionista e “emissário camuflado de Fidel Castro e Mao”. Nunca recebeu galardão da Paz, no entanto o município de Oslo (Noruega) concedeu-lhe (em 1974) um prémio de valor equivalente. O seu prestígio internacional era intocável e recebeu o doutoramento «Honoris Causa» de várias universidades. O Japão atribuiu-lhe (1983) o prémio Niwano para a Paz, enquanto a Itália o distinguiu com o Prémio Balzan.
Trabalhar com os pobres era a sua paixão. No entanto, da sua pena saíram várias obras literárias: «O deserto é fértil» (1971); «Cristianismo, Socialismo, Capitalismo» (1973); «Nossa senhora no meu caminho» (1981) e «Utopias peregrinas» (1993). Dois poemas seus inspiraram uma oratória e um ballet: «Sinfonia dos dois mundos» (musicada pelo Pe. Pierre Kaelin) e «Missa para um tempo futuro» (com coreografia de Maurice Béjart).
A 7 de Julho de 1980, durante a viagem de João Paulo II ao Brasil, o papa polaco reabilita publicamente a sua imagem ao abraçá-lo efusivamente e dando-lhe o maior título de sempre: «Irmão dos pobres e meu irmão». Um gesto ovacionado por uma multidão perplexa. No mês de Abril de 1984, o «bispo vermelho e dos pobres» despede-se da sua diocese, depois de Roma ter aceite a sua resignação por limite de idade. “Pouco importa que um bispo se jubile; a Igreja continua” - disse D. Hélder Câmara na Eucaristia celebrada no Estádio do Recife perante 30 mil pessoas.
A 27 de Agosto de 1999, o homem que tinha como lema «In Manus Tuas» (Nas Tuas Mãos) despediu-se da vida terrena. Quando soube da sua morte, D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal disse: “um gigante da história da Igreja que impressionava pela sua fragilidade humana, mas albergava uma coragem do tamanho do mundo”.

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Tuesday, February 3, 2009

O Bom Papa João XXIII

Ângelo Giuseppe Roncalli nasceu a 25 de Novembro de 1881 na cidade de Sotto il Monte, diocese eprovíncia de Bérgamo, Itália.

Apesar da oposição de seus pais – que entendiam que a opção de ingressar no Seminário se devia à pouca vontade de trabalhar e de os ajudar no trabalho duro do campo - Ângelo sentia uma grande vontade de estudar e estabelecer para si uma meta precisa. “Queria ser padre!”.
Em Outubro de 1892, apenas com 11 anos de idade, entra no seminário de Bergamo. Seguidamente, inicia o estudo da Teologia, mas, um ano após a sua chegada a Roma, Ângelo Roncalli teve de interromper os estudos para cumprir o serviço militar.
Terminada a licenciatura em 13 de Julho de 1904 e nesse mesmo ano foi ordenado sacerdote. Celebra a sua Primeira Missa na Basílica de S. Pedro, com o coração a transbordar de amor à Igreja.
Foi capelão no exército italiano na Primeira Guerra Mundial. Depois do conflito, em 1920, o Papa Bento XV nomeou-o director do Conselho Italiano da Obra da Propagação da Fé, onde mostrou toda a sua capacidade de organização.
Após a morte de Bento XV, o seu sucessor, Pio XI confiou-lhe a uma nova missão e, em 19 de Março de 1925, o padre Ângelo Giuseppe foi ordenado bispo, escolhendo como lema episcopal: “Obediência e Paz”.
Representou o Papa como visitador apostólico na Bulgária, tarefa bem difícil que lhe trouxe algumas tribulações, mas com a sua humildade, afabilidade e atitude de serenidade perante as outras religiões e os irmãos separados, conseguiu superar estas divergências, optando pelo que une e não aquilo que divide.
Em 1953, foi nomeado cardeal e Patriarca em Veneza. Aí viveu a humildade como os humildes, não com o privilégio de quem tem uma elevada posição social e religiosa, mas com a atitude natural dos homens de Deus, que dedicam a sua vida ao serviço da humanidade.
Foi grande incentivador do movimento ecuménico, dialogou com as igrejas ortodoxas, mostrando grande compreensão e diplomacia.
Em 28 de Outubro de 1958, o conclave elegeu-o como Papa com 77 anos de idade, escolhendo o nome: João XXIII. Foi uma surpresa, pois o mundo esperava um Papa jovem, no entanto o “Papa Bom”, apesar de ser idoso, marcou o seu pontificado com a humildade e simplicidade de um verdadeiro Pastor, que com o coração cheio de bondade, fez com que os cristãos se sentissem realmente povo de Deus, irmãos, filhos do mesmo Pai bondoso.
No dia 3 de Junho de 1963, morreu em Roma com a serenidade de quem, mesmo nos momentos extremos da vida deu ao mundo uma lição de fé e de esperança. Foi beatificado a 3 de Setembro de 2000, por João Paulo II.
Nos poucos anos do seu pontificado, João XXIII marcou uma nova era de renovação e modernização para a Igreja, espalhando a ideia de que esta devia intervir construtivamente em assuntos económicos, políticos e sociais, colocando o Evangelho acima de todas as opiniões e de todos os partidos que fragmentam a sociedade.
Das oito encíclicas de João XXIII, duas revelaram-se como verdadeiros instrumentos desta renovação, e tocaram mais particularmente a opinião pública:   “Mater et Magistra”, sobre a questão social e “ Pacem in Terris”, cujo tema fundamental, nove vezes retomado, é o seguinte: “A paz entre os povos exige: a verdade como  fundamento, a justiça como norma, o amor como motor, a liberdade como clima”.
A ideia de reunir em concílio todos os bispos espalhados pelo mundo, para dar à Igreja, uma nova vitalidade evangélica, foi a grande preocupação do seu pontificado. O momento era propício. Era necessário, após a guerra, continuar a reflexão começada no Concílio Vaticano I, só assim seria possível integrar os cristãos na sociedade, dando-lhe espaço e liberdade para testemunhar mais e melhor a Jesus Cristo.
Os três objectivos conciliares foram: a abertura da Igreja ao mundo moderno, a unidade dos cristãos, a presença activa da Igreja no campo ecuménico e na atenção especial aos pobres, em estrita fidelidade ao Evangelho.
Foi graças a este Pontífice, que a Igreja se abriu ao diálogo com os irmãos separados e promoveu a unidade, a estima e o respeito com todos aqueles que seguem religiões não cristãs. A um seu colaborador próximo, visivelmente surpreendido por ver muçulmanos sentados à mesa do patriarca de Veneza, o cardeal Roncalli disse: “Olha Guido, se eu pertencesse a numa nação islâmica, hoje seria um bom muçulmano. Também eles são filhos do único Pai, que está nos céus”.
“Ajudai-me a morrer como convém a um Papa”, foi uma das últimas frases proferidas pelo Santo Padre João XXIII.
 No dia 3 de Junho de 1963, dá o último suspiro. Na Praça de S. Pedro, a multidão mantinha-se em oração, olhando com tristeza a janela do terceiro andar, onde se encontrava o Papa.
Morreu o profeta da paz, dotado de uma profunda humildade marcada pelo Evangelho, que o transformou num verdadeiro mensageiro do amor cristão.
João XXIII, deixou-nos duas pequenas frases que são um legado para o mundo e verdadeira marca de vivência cristã de um homem, que dá a vida pelas suas convicções e cuja bondade é reflexo do amor de Deus: “Lembrai-vos -  gostava ele de repetir - é preciso, acima de tudo, descobrir o lado bom de cada pessoa” e, ainda, “o mundo caminha, temos de olhar para o seu lado bom, com espírito sempre jovem e confiante e não perder tempo a fazer comparações. Eu prefiro manter o ritmo de quem caminha, em vez de me deter, deixando que me ultrapassem.”

Nuno Almeida

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Tuesday, December 30, 2008

António Alçada Baptista

Sem medo de se interrogar…

 

Memorialista, cronista, romancista, católico humanista, homem de cultura e acção. Na sua primeira obra, deixou escrito: “O que peço a Deus é que me conceda viver a procurá-lo na serenidade. Saber aceitar os meus e os nossos limites que nossos filhos e netos e netos dos nossos netos irão sucessivamente quebrando”.

António Alfredo Alçada Baptista nasceu na Covilhã, a 29 de Janeiro de 1927, onde passou a infância, de que fala abundantemente na sua obra. “Penso é que muitos da minha geração foram educados como eu: com o triste temor de Deus e óleo fígado de bacalhau”, escreve em “Reflexões sobre Deus”.
Estudou no Colégio dos Jesuítas de Santo Tirso, muito frequentado pelas famílias tradicionais. Nunca esqueceu a influência marcante do seu professor e amigo, o padre António Magalhães. “Foi quem primeiro - confessa o escritor -  me aceitou e me animou a olhar interrogativamente para o homem e para o mundo … foi o meu primeiro professor de liberdade”.
Após o Liceu, desejava frequentar Letras, mas o pai insistiu no Direito. Concluiu o curso, tendo exercido pouco tempo a advocacia. Casou, entretanto, com Maria José (Zezinha) Nobre Guedes, de quem teria sete filhos.
Inicia muito cedo a actividade como militante católico, humanista, influenciado sobretudo pelo humanismo de Emmanuel Mounier, por Thillard Chardin, Pierre Emmanuel, Edgar Morin, etc. “A razão por que  não deixei a Fé - escreve mais tarde - não foi somente o temor. Tudo o que me propunham em troca era também curtinho e desajeitado. Os livre-pensadores do meu tempo ou não eram livres ou não eram pensadores”.
Depois de ter apoiado a candidatura presidencial de Humberto Delgado, no final dos anos 50 compra e passa a dirigir a Livraria Moraes, que, como editora, terá uma acção importante no lançamento de diversos pensadores católicos ou de inspiração cristã, quer como colecções de poesia (Sophia, Jorge Sena e tantos outros). “Fechei o escritório - escreve em tom irónico - arranjei uma editora e pus-me outra vez a pensar”.

Cria nesta altura o “Tempo e o Modo”, uma revista de pensamento e acção, cuja influência foi marcante do ponto de vista político e social.

Tanto a editora como a revista enfrentaram insuperáveis dificuldades económicas: “Gastei o meu dinheiro todo, parte do dos meus amigos e algum dos bancos”, porque “os livros que estava a editar me pareciam tão necessários que achava que estavam todos ansiosos por eles e nem me passava pela cabeça que ficariam por vender”, confessou posteriormente Alçada Baptista.
Criou em 1965 outra revista: “Concilium”, assumidamente católica, pós-conciliar, e que não conseguiu o imprimatur da hierarquia da Igreja portuguesa. Ficou sediada na residência do famoso bispo de Olinda Recife, D.Hélder Câmara, e saiu com o imprimatur do Presidente da Conferência Episcopal Brasileira.
Em 1971, publica “Peregrinação Interior (vol. I) - Reflexões sobre Deus”, que marca a sua verdadeira estreia como escritor. Muito conhecido o seu primeiro romance, de 1985, “Os Nós e os Laços”. Sempre muito interventivo, Alçada Baptista escreveu para jornais, cultivou amizades e afectos, e publicou muitas obras, a última das quais “ A Cor dos Dias”, em Novembro de 2003.
Morreu no passado dia 7 de Dezembro, aos 81 anos. “Sinto que a procura séria de Deus - deixou escrito Alçada Baptista - passa necessariamente pela interrogação e pela liberdade e descobri que ter fé é interrogar livremente o mistério de Deus”.

N.M.
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Monday, November 10, 2008

D. António Couto, Bispo com alma de poeta

Nascido a 18 de Abril de 1952, em Vila Boa do Bispo, concelho de Marco de Canaveses, D. António Couto era, até ser nomeado bispo auxiliar de Braga, Superior Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova. Passou por Angola e é membro da Congregação para a Evangelização dos Povos, do Vaticano. O seu percurso é marcado pela relação muito próxima com a Bíblia: no Colégio Urbaniano, de Roma, obteve a licenciatura em Sagrada Escritura, em 1986. Em 1989, depois de uma permanência de cerca de um ano em Jerusalém, no Instituto Franciscano de Emaús, obteve o doutoramento em Teologia Bíblica, por isso afirma: “A minha vocação é muito ligada à Palavra de Deus e penso que irei continuar por aí: levar a Palavra ao Povo de Deus”. E acrescenta: “Sempre gostei muito das escrituras. Cedo entrei nelas e comecei a perceber melhor como se moviam as personagens, como Deus lidava com elas e comigo, e desse ‘vício’ nunca mais me vi livre. Em todas as horas eu sei, sinto e afirmo, sem problemas, que não estou só e que Deus está comigo”.
O seu lema episcopal é «Vejo um ramo de amendoeira» (Jr 1,11) e na sua ordenação episcopal afirmou que enquanto bispo queria mostrar sinais positivos: “Esse texto, numa época trágica de sangue, de guerra, de miséria no meio de uma cidade destroçada é um grito de uma imensa esperança de Jeremias. A amendoeira é, na Palestina tal como aqui, uma das poucas árvores que cresce em pleno Inverno. É uma imagem muito forte. E essa visão forte impressionou-me desde muito cedo. O ramo de amendoeira é o marcador do livro de Jeremias, que tem os olhos cravados na esperança e por isso, o resto passa à margem. Ele não se prende com os buracos, vai ao essencial”.
O que sempre o fascinou nas missões foi o encontro com o diferente, com o diferente mais diferente: “Gosto de ver o mundo a que não estou habituado. Como sou capaz de entrar numa biblioteca, fechar a porta e estar lá dois ou três meses se me derem alguma coisa por baixo da porta para comer, porque quero vasculhar tudo e é um deslumbramento para mim, sinto o mesmo ao entrar num mundo desconhecido e passar meses e anos a ver. No meio das pessoas, criam-se relações, passam imagens, passa Deus. E aprende-se muito mais do que se ensina. Vamos para lá com ideias sobre o que falar, mas depois não consigo dizer nada porque o mundo deles antecipa-se ao meu e eu é que sou levado a ouvir o que têm para me dizer”.
Afirma que gosta de ser estimulado para aprender: “Aprendemos quando falamos e quando ouvimos os alunos. Sou deslumbrado e gosto de deslumbrar os outros. Mas não é de propósito. Isso está em mim e sai de mim. Sou incapaz de deixar passar o dia sem ler pelo menos umas duas ou três horas. Muitas vezes pego num livro que me interessa e não largo enquanto não terminar. E também escrevo bastante. A investigação e a escrita são investimentos meus. A minha vida está sempre ocupada, mesmo que não haja nada programado para fazer, eu tenho sempre muita coisa para fazer”.
Para D. António Couto, hoje, a verdadeira paróquia é aquela onde o cristão se reúne para reflectir e celebrar a sua fé, mas «parte para fora e vai ao encontro das pessoas nos cafés, nas casas, nas escolas, nas oficinas”. E acrescenta «hoje, o papel do cristão, passa-se mais fora da igreja, do que dentro da igreja.»  Não é possível, de modo algum, continuar com a actual «metodologia de manutenção, apenas acolhendo aqueles que vêm à igreja», pois desta forma, «não fazemos sentir a todos o calor da nossa vivência de Cristo e do Evangelho». Interroga-se: «Se for só um padre na sua paróquia a anunciar o evangelho, aonde é que chega o Evangelho?» E logo responde: «Quem mais depressa e fundo consegue chegar ao coração das pessoas – nas escolas, nas fábricas – não são os padres mas os leigos!»
Por muitos chamado o “bispo da esperança”, D. António Couto constata com alguma tristeza que permanentemente «nos queixamos de que o mundo não tem valores. Estamos a falar mal do mundo; isto é, mal dos outros». E logo acrescenta que «este nosso discurso está errado. Apenas temos de mostrar os valores que temos. Apenas temos de amar. Temos de amar. E amar este mundo. Estas pessoas». Para ele, este tempo em que estamos «é o de um cristianismo personalizado, pessoa a pessoa, de coração a coração». Hoje, continua, «o que é decisivo é que cada um de nós se abeire do outro, o trate pelo seu nome, como uma pessoa, e acabe por lhe fazer passar este Jesus Cristo, pelo seu comportamento».
A metodologia da missão afigura-se clara ao bispo-biblista: «cada um sair de si e  tentar transformar cada cristão num evangelizador, porque isso é que é um verdadeiro cristão». E acrescenta: «Dizemos que somos irmãos mas, na verdade, não somos irmãos; somos mais malandros que irmãos»; mas «quando alguém vai ao encontro das pessoas por amor acontecem pequenos milagres».
Vale bem a pena visitar mesadepalavras.blogspot.com e deixarmo-nos deslumbrar pelos textos que D.António Couto partilha connosco.

N.M.

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Sunday, October 26, 2008

Andrea Riccardi

Na linha da frente contra a pena de morte

Criada em Roma, em 1968, pelo historiador Andrea Riccardi, e dedicada essencialmente ao trabalho com os mais pobres, a Comunidade de Santo Egídio tornou-se mais conhecida depois da mediação do conflito moçambicano, que levou à celebração do acordo de paz, em 1992. Está ainda na memória de todos o dia 4 de Outubro de 1992, um domingo. Dia de festa, dia de ressurreição. Moçambique ressurgia. Naquela manhã foi assinado o acordo geral de paz, após longas e complexas negociações durante mais de dois anos no Centro da comunidade de Santo Egídio, em Roma.
Hoje, grupos ligados à Comunidade estão presentes em 60 países, num total de 50 mil pessoas, e nas últimas décadas o compromisso da Comunidade de Santo Egídio na luta contra a pena de morte é um dos seus empenhos mais evidentes, a nível internacional. O objectivo, considerado utópico por muitos, é conseguir a abolição universal da pena capital e a suspensão imediata de todas as execuções dos condenados à morte, em todo o mundo.
Em Novembro de 2006, a aprovação da Resolução por uma Moratória Universal da Pena Capital, na Terceira Comissão da Assembleia-geral das Nações Unidas, marcou uma etapa decisiva para acelerar um processo bem sucedido. Com efeito, desde os anos 90, mais de 50 países renunciarem ao uso da pena de morte e a restrição do seu uso em muitos países, devido a um maior respeito pela vida humana e pelas crescentes dúvidas sobre a sua eficácia e correcção na aplicação, inclusivamente em sistemas judiciários mais evoluídos.
Para este resultado contribuíram, em larga medida, as cinco milhões de assinaturas recolhidas em 153 países pela Comunidade e a criação de uma frente mundial inter-religiosa e intercultural mundial.
A Jornada Internacional Contra a Pena de Morte foi lançada em 2002 pela Comunidade de Santo Egídio e, desde então, não parou de crescer. “Cidades pela vida - Cidades contra a pena de morte” foi, em 2007, a maior manifestação pública realizada até hoje para pedir o fim da pena capital em todos os países do mundo: 700 cidades de 51 países.
Os avanços na abolição da pena de morte, a paz em Moçambique e o êxito de tantas outras acções da Comunidade de Santo Egídio não se deveram só à intervenção de “poderes fortes”, ao uso de grandes meios financeiros e a promessas em dólares sonantes. Foram igualmente decisivos a decifração clara por parte dos intervenientes dos complexos termos das questões, no plano político e no plano humano.
Compreendemos melhor o carisma e a acção da Comunidade de Santo Egídio se prestarmos também atenção ao seu fundador. Como historiador, Andrea Riccardi fez,  por exemplo, um levantamento do que foram as perseguições e martírios dos cristãos durante o século XX. O resultado é um fresco impressionante. O autor de “O Século do Martírio” diz que, seguramente, se podem calcular três milhões de mortos só pelo facto de professarem uma fé.
    Certamente que o conhecimento aprofundado de tanto heroísmo, faz olhar para a história de outra maneira. “O martírio cristão – adverte o autor – não reclama vingança, os mártires morrem perdoando. É um martírio não violento, não é um martírio de ódio. Isto é muito importante. Também a Igreja deve entender a mensagem dos mártires, que não foi ainda compreendida. É a mensagem do testemunho de uma força débil. O cristianismo é uma força débil. Há muito a descobrir, de novo no cristianismo. Cito a frase do padre Men, de origem hebraica, russo, ortodoxo, morto em 1990, talvez uma das últimas vítimas do KGB. Ele diz que o cristianismo é qualquer coisa mais que uma forma cristalizada, é um tesouro a descobrir”.
A força que empurrou todos para a construção da paz foi uma força “débil”, fruto de não ter outro interesse a não ser o da paz. Para os crentes esta força vem do imperativo de não ter inimigos; do sonho que as espadas se podem transformar em foices, desarmando as mãos e os corações dos homens, ensinando o valor insubstituível que representa a vida de cada um. É a mesma força que leva a Comunidade Santo Egídio à mobilização para abolir a pena de morte, considerada «imoral e inútil», e sempre uma “grande derrota da cultura da vida».
Actualmente, há 125 países abolicionistas no mundo; outros 57 mantêm ainda a pena capital e 44 são abolicionistas de facto, ainda que mantenham a pena no sistema jurídico.
A Comunidade de Santo Egídio nasceu em 1968, após o Concílio Vaticano II. Nutre-se de um humanismo radicado no Evangelho, de um Evangelho levado a sério, feito coração da existência, esperança mobilizadora de energias de generosidade e de solidariedade. Este humanismo cristão tem o seu encontro constante, então como hoje, na solidariedade com aqueles que parecem ser condenados a ser os miseráveis da terra, nas grandes cidades opulentas do Norte como nas cidades e nos países do Sul. Deste humanismo, alimentado de fé e animado de esperança, nasce ainda hoje uma cultura de solidariedade. Deste humanismo nasce uma vida, uma filosofia, muitas iniciativas, vividas como diálogo com outros humanismos, com muitos mundos religiosos, com diversas culturas.
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Monday, August 4, 2008

D.Basílio do Nascimento

 

O Bispo de Baucau, Timor, esteve recentemente em Évora. D. Basílio do Nascimento veio “matar saudades” da cidade, da Diocese e dos amigos que o acompanharam na sua formação sacerdotal. Recorde-se que estudou e foi ordenado padre diocesano, em Évora, em 1977, onde permaneceu até 1994, ano em que foi transferido para Timor.

 

Apesar da independência alcançada, Timor é ainda é uma nação muito jovem e com grandes desafios pela frente. Em Fevereiro passado sofreu uma tentativa de “golpe de Estado”.  D.Basílio do Nascimento comenta: “Por mais estranho que pareça, penso que o “golpe de Estado” criou uma certa consciencialização para que as pessoas não se deixem levar por falsas promessas. Penso que o facto do atentado ser contra as duas mais importantes figuras do Estado, o Presidente e o Primeiro-Ministro, criou também uma consciência no povo, em geral, de que há qualquer coisa de ameaçador”.

Sobre se os timorenses estão ou não a viver melhor ou pior do que há 5 anos, D.Basílio não tem dúvidas: “Do ponto de vista da segurança e da estabilidade, julgo que estão melhores. Do ponto de vista económico, sendo que esta crise mundial também nos atinge, estamos pior. A crise alimentar que assola o mundo também se faz sentir em Timor. Por exemplo, um saco de arroz de 50kg que há 3 meses custava 13 dólares, hoje custa 40 dólares”.

Timor é produtor de petróleo. Mas não se vislumbram benefícios: “Por mais paradoxal que pareça, quando falamos com os membros do Governo, eles dizem sempre que dinheiro não é problema. Somente para se ter uma ideia, dizem os Governantes, que actualmente os benefícios do petróleo rondam os 240 milhões de dólares por mês. Simplesmente olhando para a realidade de Timor, necessariamente, nos interrogamos: onde está aplicado esse dinheiro?

Comparando com o que se passava em Timor há 5 anos, D. Basílio afirma que Díli está diferente para melhor. Muitas casas já foram recuperadas. As ruas estão mais limpas. A urbanização em Díli ainda continua a ser um caos, mas esperamos que os técnicos possam contribuir para o embelezamento da cidade. Por outro lado, o parque automóvel, que sabemos que a maioria é dos funcionários da ONU, contradiz o rótulo de pobre que temos. A nível de segurança não se registam problemas. Na saúde há melhorias. Infelizmente, em termos de estradas não tiveram grandes melhorias, mantendo-se ainda as que foram deixadas pelos indonésios, como acontece com as pontes, que só agora estão a ser finalizadas.

Sobre a agricultura, acrescenta que o actual ministro da tutela está a dar um grande dinamismo ao sector, porque compreendeu que a agricultura nesta fase deve ser a força motriz de Timor. Há grandes investimentos neste sector. Por exemplo, dizem as fontes oficiais que Timor necessita 90 mil toneladas de arroz, sendo que só produzimos 30 mil. Por um lado, esta situação obriga-nos a apertar o cinto. Por outro lado, deve ser uma motivação para tirar melhor partido das terras que temos. Infelizmente não há melhorias na pesca. Existe a pesca artesanal. Neste momento há contratos com a Tailândia que vêm pescar nas nossas águas. Contudo,  D.Basílio realça sobretudo o clima de segurança e de paz que se respira em Timor.

Sobre a acção da Igreja em Timor, o Bispo de Baucau diz que continua a ser aceite e respeitada: “Num dado momento, pensei que os ânimos esmorecessem um bocado, e é verdade que depois da independência houve uma diminuição da prática religiosa, mas hoje em dia vê-se de novo aquele esplendor em termos de prática e de afectividade. Há vários fenómenos que é necessário interpretar, mas convenço-me que há elementos de identidade timorense dos quais não podemos fugir à realidade: o catolicismo entra hoje como um elemento de identidade timorense”.

As duas dioceses existentes fazem cobertura de toda a ilha. Contam com sacerdotes, catequistas e animadores de comunidades. “Não tenho dúvidas  - afirma D.Basílio - de que a força da Igreja Timorense residiu e reside nos Leigos. Hoje em dia, apesar da limitação de formação, cada vez mais se vê que os leigos, aqueles que têm papel a exercer dentro da Igreja, fazem-no com maior convicção e, direi mesmo, militantismo. Dão a entender que de facto a Igreja também é deles. Na minha diocese tenho: 42 sacerdotes entre diocesanos e religiosos; 242 catequistas remunerados; 1700 catequistas não remunerados. Digamos que estes são as bases que estão em quase todos os lugares, animando as comunidades, mesmo nos lugares mais recônditos. Em suma, os leigos, sempre o fizeram, e actualmente, estão a fazer um belíssimo trabalho”.

Em relação a uma possível terceira diocese D.Basílio informa que o Vaticano aguarda a definição por parte do governo da divisão administrativa do território. Uma futura abrangerá certamente a zona de Mariana. Mesmo se as duas actuais já trabalham em conjunto, só uma outra diocese permitirá a criação de uma conferência episcopal.

 A diocese continua a dirigir estruturas implementadas, como a tipografia, o turismo, a formação: “Estas estruturas – explica D.Basílio -  surgiram, tentando dar resposta a uma frase de um nosso antigo reitor do Seminário, um sacerdote jesuíta que dizia, na altura, ‘metam na vossa consciência que nunca poderão pregar o Evangelho a estômagos vazios’. Foi com esta ideia que cresci, e sempre pensei, que se tivesse uma responsabilidade na Igreja, deveria fazer algo ao nível material. Tentou-se criar uma série de estruturas que visam a formação das pessoas e dar o pão diário a algumas famílias. Tudo começou às apalpadelas, pois a ideia era bonita, mas não sabíamos bem aonde íamos. Mas fomos tendo apoio do Governo Português, de entidades, de amigos e, hoje, os objectivos já estão mais definidos.

Felizmente podemos dizer que o pão não falta, o que é motivo de contentamento, mas como deve imaginar dirigir tudo isso dá muitas dores de cabeça. O certo é que as coisas se vão bastando a si próprias. Não há dívidas, mas também não há ainda lucros. Pensamos que é um investimento que dará os seus frutos”.

A par do desenvolvimento económico e social, há também o desenvolvimento espiritual. Sobre as vocações o Bispo de Baucau refere: “Felizmente há vocações e não só em Baucau. Penso que é uma das grandes riquezas da Igreja Timorense, o crescimento das vocações para a vida consagrada. Hoje em dia, Timor-Leste é um país onde as vocações florescem. Para dar um número, o Seminário Menor está lotado, com 120 seminaristas, sendo que no ano passado tivemos que recusar cerca de 230 candidatos. O Seminário Maior, em Díli, tem 83 seminaristas. Ainda há um Seminário intermédio, que neste momento, tem 43 seminaristas. Trata-se de um Seminário Propedêutico, onde se ensinam línguas, algumas introduções e espiritualidade. Para este Seminário vão também aqueles que não fizeram o Seminário menor. Neste momento, os três Seminários tem mais de 230 seminaristas”.

 

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Monday, July 7, 2008

Ingrid Bentancourt

“Deus, isto é um milagre!”

Ingrid Betancourt foi raptada pelo grupo terrorista FARC, a 23 de Fevereiro de 2002, em plena campanha para as eleições presidenciais. Permaneceu refém até ao dia 2 de Julho de 2008, quando foi libertada juntamente com outros catorze reféns. A todos impressionaram as imagens em que ela e os acompanhantes estão de joelhos no aeroporto. Nas primeiras declarações que proferiu, não se esqueceu de Deus, assumindo, sem receio, que, no cativeiro, a oração foi uma constante e a Bíblia uma companhia.

Ingrid nasceu a 25 de Dezembro de 1961, em Bogotá, no seio de uma família de tradição política. É filha de Gabriel Betancourt Mejía, ex-ministro da Educação e ex-consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), falecido um mês após o sequestro da filha. A mãe Yolanda Pulecio, é ex-congressista e ex-embaixadora na Guatemala. Ficou muito conhecida também pelo seu trabalho a favor da infância e da juventude.

Ingrid Betancourt licenciou-se no Instituto de Ciências Políticas de Paris. É analista política, especializada em comércio exterior e relações internacionais. Casou-se em 1981 com o diplomata francês Fabrice Delloye, com quem teve dois filhos, Melanie e Lorenzo e de quem se separou em 1990. Casou segunda vez com o publicitário colombiano Juan Carlos Lecompte.

Depois de residir vários anos em França, regressou em 1990 à Colômbia, onde trabalhou como assessora do ministério das Finanças e do Crédito Público e depois do Ministério do Comércio Exterior.

A sua carreira política começou propriamente em 1994, ao ser eleita para a Câmara dos Vereadores de Bogotá pelo Partido Liberal. Empreendeu, entretanto, várias acções contra a corrupção, não temendo denunciar o envolvimento do presidente Samper.
Em 1998, abandonou o Partido Liberal e nas eleições de 8 de Março desse ano foi eleita senadora pelo partido Oxigénio Verde, marcadamente ecológico.

Em 23 de Fevereiro desse ano, viajou em campanha, para a região do Caquetá, onde foi sequestrada pelos guerrilheiros das FARC. A guerrilha deu “provas de vida” de Betancourt, que também tem nacionalidade francesa, em Julho de 2002 e em Agosto de 2003.

Numa carta à mãe, há um ano atrás, Ingrid dizia-se “cansada de sofrer” e descrevia as condições em que vivia: “Vivo, ou sobrevivo, numa rede estendida entre duas estacas. Tenho uma prateleira onde ponho as minhas coisas, a saber, uma mochila com roupa e a Bíblia, que é o meu único luxo”.

No dia da libertação narrou o que sentiu ao avistar os helicópteros de resgate. “Devo confessar que senti uma coisa muito estranha, porque sempre que ouvíamos os helicópteros tínhamos que sair a correr”, disse. “Logo depois, houve um toque na porta e o chefe de operações disse: ‘Somos do Exército Nacional, vocês estão livres e quero compartilhar convosco esta emoção’”.

“Deus, isto é um milagre!”. Foram estas as palavras usadas por Ingrid Betancourt para descrever a operação que levou ao seu resgate. Pálida, magra, mas sorridente, a ex-candidata presidencial chegou ao início da madrugada do dia 3 de Julho ao aeroporto militar de Bogotá, onde se entregou nos braços da mãe e do marido, que aguardavam ansiosos a sua chegada, depois de mais de seis anos em cativeiro. “Esta operação é um orgulho para todos os colombianos. Não há antecedentes de uma operação tão perfeita”, afirmou a senadora franco-colombiana.

Na madrugada do dia da libertação levantara-se para rezar o terço e abandonar-se à Vontade de Deus: “esta manhã rezei o terço às 4 h pensando na minha mãe e achei que algo estava reservado para mim. Podíamos sonhar porque ouvia minha mãe e meus filhos falar nos meios de comunicação” - lembrou.

Os filhos Melanie e Lozenzo Betancourt já reencontraram a mãe. Juntaram-se naquele abraço, entre lágrimas, desejado há mais de seis anos. Em declarações ainda no aeroporto, após os beijos, abraços e lágrimas, Ingrid Betancourt foi, apenas mãe. Orgulhosa mãe. “Estão muito bonitos e na moda”. “Dou graças a Deus por este momento tão belo”. “São os meus meninos, a minha luz, a minha lua, as minhas estrelas”.

Em várias entrevistas, Ingrid tem dito que está “muito surpreendida” com a popularidade que tem e agradeceu a todos por “acompanhá-la” durante o período em que esteve em cativeiro. “Sinto que sou abençoada por Deus” - afirmou. A ex-refém tem repetido ainda que a operação do Exército colombiano que lhe deu a liberdade esteve sob a protecção da Virgem de Guadalupe: “estou convencida de que minha libertação foi um milagre da Virgem”.

Ingrid Betancourt é um hino vivo à persistência, à ousadia, à coragem, à fé. Exprime eloquentemente a força ínsita no género humano e, particularmente, no génio feminino. Certamente que a todos impressionaram as imagens em que ela e os acompanhantes estão de joelhos no aeroporto. Nas primeiras declarações que proferiu, não se esqueceu de Deus, assumindo, sem receio, que, no cativeiro, a oração foi uma constante e a Bíblia uma companhia.

Falta, agora, libertar os outros 700 reféns!


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Wednesday, June 11, 2008

Daniel Serrão

 

O valor da vida merece de todos o mesmo respeito

 

 

A ciência está legitimamente na busca de uma maior eficácia, melhoramento das técnicas e da compreensão das causas das doenças e das incapacidades para as curar. Descobertas recentes parecem apressar a sociedade na tentativa de controlar sistematicamente os nascimentos, a doença e a morte.

 

 

Nasceu em Vila Real a 1 de Março de 1928, completando em 1951 o Curso de Medicina, com média final de 17 valores. Casou em 1958 com Maria do Rosário de quem teve seis filhos e destes tem, actualmente, nove netos.

Doutorou-se em 1959, com 19 valores. Concorreu em 1961 a Professor extraordinário de Anatomia Patológica e foi aprovado por unanimidade. Concorreu a Professor Catedrático em 1971, também unanimemente aprovado, assumiu a direcção do Serviço Académico e Hospitalar de Anatomia Patológica.

De 24 de Junho de 1975 até 30 de Junho de 1976 esteve demitido de todas as suas funções em consequência de um saneamento selvagem, que foi anulado por decisão do Conselho da Revolução, tendo-lhe sido pagos os vencimentos dos doze meses durante os quais foi impedido de exercer as suas funções académicas e hospitalares.

Montou e dirigiu um Laboratório privado de Anatomia Patológica que, de Julho de 1975 até Dezembro de 2002, realizou um milhão e seiscentos mil exames histológicos e citológicos para hospitais públicos e para clientes privados. Foi jubilado em 1 de Março de 1998.

Daniel Serrão fala com frequência das fronteiras e limites da ciência no que respeita à investigação: Actualmente a fronteira mais aceite pela Sociedade é a dignidade humana. Quando no final da Segunda Guerra Mundial os vencedores e os vencidos se sentiram horrorizados com os milhões de seres humanos mortos fizeram um apelo ao conceito de dignidade humana como a via adequada para acabar com as guerras entre as pessoas e, por via destas, com a guerra entre as nações. A ONU aprovou, há 60 anos em Assembleia Geral, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, magna Carta da Paz. O conjunto destes direitos configura a dignidade humana. Respeitá-los é respeitar e honrar dignidade humana.

A investigação científica é essencial e não se pode pôr em causa, mas sobre o que fazer para controlar o seu uso, afirma Daniel Serrão: “De facto a investigação deve ser livre porque dela se espera um melhor conhecimento da biologia humana e o conhecimento é libertador. Mas devemos vigiar o uso do conhecimento em intervenções sobre o ser humano porque é no uso que pode surgir o abuso. Nem tudo o que pode, tecnicamente, ser feito, deve ser feito.

E a dignidade humana é a fronteira do dever. A ética médica é o meio com o qual se avalia um determinado procedimento. Se, por exemplo, uma empresa farmacêutica quer experimentar um novo medicamento em seres humanos, a ética exige que as pessoas sejam informadas de todos os riscos e benefícios e dêem livremente o seu consentimento.

Sem este consentimento livre e esclarecido da pessoa há ofensa à dignidade humana. Se um biólogo quer destruir embriões humanos para simples investigação a ética diz que se trata de ofensa à dignidade humana porque o embrião humano é, seguramente, um ser vivo da espécie humana, com direito absoluto à vida e ao desenvolvimento. 

São, portanto, muitos os perigos que corre a investigação científica:O principal perigo é o do investigador esquecer que é um cidadão como os outros, com os mesmos direitos e os mesmos deveres. E que, por isso, lhe cabe defender a dignidade humana em todas as situações, particularmente as que decorrem do seu trabalho como cientista. O cientista “louco” pode servir para filmes de ficção, mas a realidade tem de ser completamente diferente. A investigação tem de ser transparente e estar sujeita a escrutínio público. Lembremos que quem paga a investigação são os cidadãos com os seus impostos.”

Sobre como conciliar ética científica e moral cristã, Daniel Serrão declara:O cientista cristão, e são numerosos em todo o mundo e em todos os campos de investigação, estará atento ao melhor bem da pessoa e sabe que nem tudo o que é tecnicamente possível é aceitável pela sua consciência de cristão. Mas há cientistas que não são cristãos. A estes, há que lembrar-lhes que cristãos e não cristãos devem respeito à dignidade humana e aos valores que a definem. Aqui não há diferença entre uns e outros. A diferença está no fundamento. Para mim como cristão, o fundamento é transcendental, é a filiação no acto criador de Deus. Para o cientista ateu o fundamento é a natureza e as leis que a inteligência vai descobrindo. Mas o valor vida merece de uns e de outros o mesmo respeito”.

 


 

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