Quarta-feira, Setembro 14, 2011

Viktor Frankl

Viktor Emil Frankl, especialista em neurologia e psiquiatria, nasceu em Viena, a 25 de Março de 1905, de pais judeus: Elsa Lion e Gabriel Frankl. Pouco antes dos Estados Unidos da América entrarem na guerra, Frankl  obteve o visto para partir, mas deparou-se com num dilema tremendo: partir, significava abandonar os seus pais ao próprio destino. Incapaz de tomar uma decisão, pediu desesperadamente “um sinal ao céu”. Ao regressar a casa, encontrou sobre a mesa um pedaço de mármore recolhido pelo seu pai nas ruínas da sinagoga, destruída pelos alemães. Era um fragmento dos Dez Mandamentos, e aqueles caracteres hebraicos esculpidos não deixavam qualquer dúvida: eram as palavras iniciais do mandamento “honra pai e mãe…” (Ex 20,21). A decisão foi imediatamente tomada: ficar junto dos seus pais e deixar o visto caducar. É nesta ocasião que conhece Tilly Grosser, enfermeira responsável e mulher dotada de “engenho natural” e “delicadeza de sentimentos”, com quem casou a 17 de Dezembro de 1941.

Somente nove meses depois do feliz dia da sua união, Frankl, a mulher e toda a família foram deportados para o campo de concentração de Theresienstadt, para depois serem transferidos para Auschwitz. Frankl conheceu o cativeiro, período que ele mesmo chamou de experimentum crucis. Consegue sobreviver ao tifo, que quase o levou à morte, e resistiu à fome, ao frio e à doença, graças a uma objectivação da dor, ou seja, à capacidade de se auto-distanciar daquele mundo que o circundava, unida àquela que ele define como “auto-transcendência”, compreendida como “orientação da existência humana para além de si, orientada para algo ou para alguém”.

Frankl constatou que os prisioneiros que perdiam a fé e a esperança no futuro punham em risco a saúde e a própria sobrevivência. Mas também viu que há o que ninguém pode tirar ao Homem, mesmo num campo de concentração: “a última das liberdades humanas – a escolha da atitude pessoal perante um conjunto de circunstâncias – para decidir o seu próprio caminho.” Mesmo “essa tríade trágica na qual se incluem a dor, a culpa e a morte, pode chegar a transformar-se em algo positivo, quando se enfrenta com a postura e a atitude correctas.

No processo de evolução do pensamento frankliano, a experiência da deportação teve, portanto, uma função de “prova” e de confirmação experimental directa. A dolorosa vicissitude do internamento torna-se assim num extraordinário banco de prova para uma concepção antropológica destinada a re-humanizar a psicoterapia e as ciências humanas, a demonstração do facto de que em qualquer situação existencial se pode buscar um significado e que também as condições mais hostis podem ser transformadas numa vivência digna do espírito humano, numa ocasião de crescimento pessoal e maturação interior.

No dia 24 de Abril de 1945, os prisioneiros do Campo de Dachau foram libertados pelos americanos: finalmente Frankl podia regressar à sua cidade natal. Mas, se tinha passado o inferno, os lutos mais graves deveriam ainda feri-lo: no dia em que regressou a Viena teve a notícia que a esposa Tilly tinha morrido, só alguns dias mais tarde soube da morte da mãe numa câmara de gás em Auschwitz em 1944 e da morte do irmão numa mina de trabalhos forçados. Acrescentam-se notícias de muitos parentes e amigos. Frankl estava vivo e salvo, mas só.

Mesmo se Frankl se refere permanentemente à sua experiência no campo de concentração, não pretende encorajar o vitimismo, nem incutir uma espécie de “técnica da sobrevivência”, qual impossível panaceia. O que é certo é que este contexto oferece elementos de grande valor para uma verdadeira psicologia das situações-limite. O próprio Frankl afirma: “O campo de concentração […] foi um verdadeiro experimentum crucis. Aqui as capacidades propriamente humanas da auto-transcendência e do auto-distanciamento, sobre as quais chamei a atenção mais vezes nos últimos anos, foram verificadas e convalidadas em termos existenciais”.

Nos anos que se seguiram, escreve uma enorme quantidade de livros, ensaios e artigos, viajou acompanhado pela mulher, Eleonore Schwindt, com quem casou a 18 de Julho de 1947, para fazer conferências em inúmeras Universidades do Mundo.

Obrigado por uma progressiva doença dos olhos a reduzir as suas viagens ao estrangeiro e as suas lições – a última das quais aconteceu na Clínica Universitária de Viena em 21 de Outubro de 1996, quando tinha já 91 anos, Frankl morreu a 2 de Setembro de 1997, depois de ter dedicado toda a sua vida a ajudar os outros na busca de um sentido para a sua existência.

Ele próprio sintetizou o núcleo do seu pensamento: “O que é, na realidade, o Homem? É o ser que decide o que é. É o ser que inventou câmaras de gás, mas ao mesmo tempo é o ser que entrou nelas com passo firme, murmurando uma oração.

N.N.

Publicado por N.M. em 09:35:26 | Link | Comentários Desligados

Quarta-feira, Agosto 3, 2011

Maria José Nogueira Pinto

Nascida em Lisboa, a 23 de Março de 1952, Maria José Pinto da Cunha de Avillez Nogueira Pinto, era filha de Luís Maria de Avilez de Almeida de Melo e Castro e de Maria José de Melo Breyner Pinto da Cunha e irmã da jornalista Maria João Avillez e da especialista em moda e imagem Maria Assunção Avillez. Era casada, desde 1972, com o jurista Jaime Nogueira Pinto, que conheceu na Faculdade de Direito, e mãe de três filhos, um rapaz e duas raparigas.

No último artigo que escreveu, publicado no Diário de Notícias (DN) de 07 de Julho de 2011, afirma:“Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos – o Eduardo, a Catarina, a Teresinha – e com os filhos deles. Há quase quarenta anos”.

Jurista de formação, Maria José Nogueira Pinto destacou-se na vida política como figura de Estado e dirigente partidária. Entrou para a política pela mão de Cavaco Silva, tendo integrado a comissão de honra da sua recandidatura a Presidente da República, na campanha eleitoral do final do ano passado, altura em que já sabia estar doente. Sobre a sua actividade pública, explica no DN: Acho que descobri a política – como amor da cidade e do seu bem – em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia”.

Confessa, no texto citado, que procurou viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais – Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditou. Tentou sempre dar testemunho deles na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções, que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz – como repetiu João Paulo II – “não tenhais medo”. Confessa sem hesitação: “Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos”.

No dia 12 de Fevereiro passado, Maria José Nogueira Pinto teve, juntamente com a família conhecimento da sua doença. “Nesse dia – escreve o seu marido, Jaime Nogueira Pinto –  no Hospital da Luz, a Zézinha foi informada quase ao mesmo tempo que nós do que tinha e quais eram as perspectivas; e  percebeu perfeitamente que tinha uma sentença de morte a curto prazo em cima da cabeça. Jantámos nessa noite com os nossos filhos e começámos, conscientes, uma longa e dolorosa noite das Oliveiras. Às quatro da manhã, vi que ela não estava no quarto e fui procurá-la. Estava na casa de jantar, a fumar um cigarro. Perguntou-me se queria também um chá, que ia fazer para ela. E assim ficámos até às seis, a beberricar um chá e a falar da nossa vida. Da nossa vida que tinha sido uma vida boa, mas que não tivera nada a ver com uma boa vida. Tinha sido uma vida difícil, muito rica de riscos e afectos, de grandes amizades e algumas desilusões. E ela agradeceu – e eu com ela – a Deus que nos tinha dado essa vida, e os nossos filhos, e os nossos netos, e toda a família. E os nossos amigos. Todos vós”. Depois, foi o princípio duma caminhada que terminou com a sua morte, no dia 06 de Julho passado.

Quase a terminar o seu último e já citado texto, Maria José Nogueira Pinto escreve: “Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor. Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo. Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará”.

N.M.

Publicado por N.M. em 18:18:43 | Link | Comentários (296)