Zilda Arns
Multiplicar o bem
Zilda Arns sucumbiu, aos 75 anos, sob os escombros do terramoto, enquanto caminhava pelas ruas de Porto Príncipe, capital do Haiti, no dia 12 de Janeiro de 2010. Nasceu a 25 de Agosto de 1934, em Forquilhinha (Santa Catarina - Brasil). Morava em Curitiba, no Paraná, e deixou cinco filhos e dez netos.
Médica pediatra, Zilda Arns dedicou toda a sua vida à saúde das pessoas mais vulneráveis. Durante 25 anos, coordenou a Pastoral das Crianças e, desde 2004, a Pastoral da Pessoa Idosa, organismos de acção social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que prestam ajuda a milhões de crianças, idosos e famílias mais pobres.
Com meios simples, como o soro caseiro, o alimento à base da multimistura e outros recursos mínimos, Zilda ajudou a salvar milhares de crianças que antes fatalmente morreriam. O seu extraordinário trabalho está, actualmente, difundido em mais de 20 países pobres do mundo.
Para além da mais que justa homenagem a prestar a esta grande mulher, irmã do cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, há que enfatizar os valores do capital espiritual que sustentaram a sua prática.
Zilda viveu uma mística de amor à humanidade sofredora, de esperança que faz descobrir que há sempre algo a fazer para salvar vidas, de fé na força dos fracos que se organizam e na escuta de todos, até das crianças que ainda não falam. Ela tinha clara consciência de que a solução para os grandes problemas vem da sociedade que se mobiliza. Sem dispensar o que o Estado deveria fazer, estava convicta de que os problemas sociais se resolveriam a partir da sociedade. Para isso, ela procurou suscitar a sensibilidade humanitária escondida em cada pessoa e inaugurou a chamada “política da boa vontade” em muitos países: mais de 250 mil voluntários, sem nenhuma recompensa financeira, propuseram-se assumir os trabalhos sob a sua orientação.
Uma ideia-chave movia a sua acção, inspirada na prática de Jesus: multiplicar. Não apenas pães e peixes como Ele fez, mas nas condições de hoje, multiplicar o saber, a solidariedade e os esforços.
Multiplicar o saber implicava transmitir às pessoas simples os rudimentos de higiene, o cuidado pela água, a medição do peso e a alimentação adequada às crianças. Esse saber reforça a auto estima das pessoas e confere autonomia à sociedade civil.
Multiplicar a solidariedade que, para ser universal, deve partir dos últimos, tentando atingir as pessoas que vivem nos rincões onde ninguém vai, tentar salvar as crianças mais desnutridas e quase agonizantes.
Multiplicar esforços, envolvendo as políticas públicas, as ONGs, os grupos de base, as empresas em sua responsabilidade social, enfim, todos os que colocam a vida e o amor acima do lucro e da vantagem. Mas, antes de tudo, multiplicar a boa-vontade generosa.
É convicção crescente que não sairemos da crise de civilização actual se continuarmos com os mesmos hábitos e os mesmos valores consumistas e individualistas que inspiram as nossas vidas. Zilda mostrou que há caminhos diferentes e melhores.
O século XXI será o século do cuidado pela vida e pela Terra ou será o século de nossa auto-destruição. Até agora, globalizamos a economia e as comunicações. Temos de globalizar a consciência planetária e multiplicar o saber útil à vida, a solidariedade universal, os esforços que visam construir aquilo que ainda não foi ensaiado. Amor e solidariedade não entram nas estatísticas nem nos cálculos económicos, mas são os que mais procuramos e os que nos podem salvar. Zilda Arns, seguramente sem o saber, mas profeticamente, mostrou-nos com sinais eficazes que esse mundo não é só possível, mas é realizável já agora.
N.M.






