Tuesday, October 26, 2004

Cristina e Filipe

Partir em Missão

Já se encontram em Moçambique, desde o dia 29 de Setembro, para uma missão que durará dois anos. Cristina, professora de Educação Moral e Religiosa Católica e Filipe, músico, são um casal de Leigos Missionários da Consolata que nos interpela com o seu testemunho missionário.

Casaram há três anos e fizeram uma opção pela missão “ad gentes” e pela evangelização dos mais pobres, segundo o Carisma dos Missionários e Missionárias da Consolata.
A Tina é professora de Educação Moral e Religiosa Católica e o Filipe é músico. Têm residência no Linhó, perto de Sintra, mas nos próximos dois anos não irão usufruir do seu lar, pois andarão por terras moçambicanas, trabalharão na escola secundária “Pe. Geraldo Gumiero” e pelos vastos domínios da Missão de Mapinhane.
Não é todos os dias que encontramos um testemunho assim. “Já são muitos os anos que nos ligam à Consolata – explicam Cristina e Filipe – inicialmente como Jovens Missionários da Consolata, que se foram deixando apaixonar cada vez mais por Cristo e pela sua missão de evangelização”.
Esta vocação à missão esteve sempre presente, mesmo no namoro e depois na vida de casal. ” Como leigos missionários – explicam – sentimos que somos chamados e desafiados ao testemunho de vida na nossa profissão, nas escolhas do dia a dia, na forma como nos comportamos e como vivemos a nossa vida humilde, apaixonada pelos outros e desprovida de excessos materiais”.
Partem com a convicção de que a presença e o testemunho de vida como casal é mais importante do que qualquer projecto concreto que possam realizar, mas mesmo assim afirmam: ” Não podemos fechar os ouvidos aos apelos que nos chegam daqueles que se encontram na missão”.
Deixar o conforto do lar e da vida “burguesa” não é fácil para ninguém. Mas Tina e Filipe dizem-nos que partem com alegria, pois querem dar continuidade ao trabalho de tantos outros missionários leigos que os antecederam nesta aventura. Concretamente pretendem empenhar-se na formação de professores, tendo como parceiros a Universidade Católica de Moçambique, a Esmabana ( Centro administrativo para a coordenação do ensino à distância), a Escola João XXIII e os Irmãos de La Salles, para aulas presenciais na cidade da Beira e recolha dos trabalhos individuais.
O objectivo deste projecto é dar formação superior aos professores, habilitando-os para áreas específicas, para que possam leccionar a classes mais elevadas. Procuram, ainda evitar que os professores não precisem de se deslocar para as grandes cidades para estudar, deixando as escolas do interior desprovidas de docentes.
Quanto aos custos deste projecto, conseguiram já, em Portugal e com o apoio de tantos amigos, 50%, ou seja, 2400 euros. Apesar das carências afirmam: “Sonhamos como será a missão, com as pessoas que vamos encontrar, o trabalho que iremos desempenhar, tanto na escola como na pastoral. Podemos dizer que não sentimos medo, mas a serenidade de quem pensa estar a cumprir um missão a que foi chamado, mesmo se se trata de um missão tão radical!”.

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Carlos Paredes

A voz da guitarra

Carlos Paredes, criador e intérprete genial de guitarra portuguesa, morreu no dia 23 de Julho passado, aos 79 anos de idade e após 12 anos sem poder tocar devido a doença grave.

Nasce em Coimbra, a 16 de Fevereiro de 1925. Filho de Alice Candeias Duarte Rosas Paredes e do célebre guitarrista, Artur Paredes. Neto e bisneto dos também guitarristas Gonçalo e José Paredes.
Com apenas quatro anos de idade, começa a aprender a tocar guitarra com o pai, embora a mãe preferisse que o filho se dedicasse ao piano. Na sua última entrevista, recorda: “Em pequeno, a minha mãe, coitadita, arranjou-me duas professoras de violino e piano. Eram senhoras muito cultas a quem devo a cultura musical que tenho”.
Em 1934, a família muda-se para Lisboa, e Carlos conclui a instrução primária no Jardim-Escola João de Deus. Posteriormente, frequenta o Liceu Passos Manuel, começando também a ter aulas de violino na Academia de Amadores de Música.
Em 1937, abandona o violino para se dedicar, sob a orientação do pai, completamente à guitarra. Carlos Paredes fala com saudades desses tempos: “Neste anos, creio que inventei muita coisa. Criei uma forma de tocar muito própria que é diferente da do meu pai, do meu avô, bisavô e tetratavô”.
Em 1939 inicia uma colaboração regular num programa de Artur Paredes na Emissora Nacional. Simultaneamente, termina os estudos secundários num colégio particular.
Em 1943 faz exame de admissão ao Curso Industrial do Instituto Superior Técnico, que não chegou a concluir. Inscreve-se nas aulas de canto da Juventude Musical Portuguesa, tornando-se em 1949 funcionário administrativo do Hospital de S.José.
Em 1958, é preso pela PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, de que era de facto militante, sendo libertado no final de 1959, sendo expulso da função pública na sequência de julgamento.
Em 1962, é convidado pelo realizador Paulo Rocha, para compor a banda sonora de “Verdes Anos”. “Muitos jovens vinham de outras terras – explica Carlos Paredes - para tentarem a sorte em Lisboa. Isso tinha para mim um grande interesse humano e serviu de inspiração a muitas das minhas músicas. Eram jovens completamente marginalizados, empregadas domésticas, de lojas … Eram precisamente essas pessoas com que eu simpatizava profundamente, pela sua simplicidade”.
Nos anos seguintes seguem-se muitas composições para variadas bandas sonoras, gravando, em 1967, o seu primeiro LP, “Guitarra Portuguesa”.
Depois do 25 de Abril de 1974, é reintegrado no quadro do Hospital de São José. Percorre o país, actuando em sessões culturais, musicais e políticas em simultâneo, mantendo sempre uma vida simples, e por incrível que possa parecer, a sua profissão de arquivista de radiografias.
São editadas várias compilações de gravações de Carlos Paredes, estando desde 2003 a sua obra completa reunida numa caixa de oito CD.
Morre no dia 23 de Julho de 2004, na Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, sendo decretado Luto Nacional.
Autor de “Verdes Anos”, “Porto Santo”, “Romance”, “Pantomina”, “Movimento Perpétuo”, “Mudar de Vidas”… e tantos outros temas. A guitarra portuguesa não regista muitos compositores. Por isso Carlos Paredes explica: “Fui arranjando reportório, inventando músicas. O que havia antes eram umas peças de amadores, muito agradáveis de ouvir, mas que não eram a literatura de que a guitarra precisava”.
Numa das últimas entrevistas, afirma com humildade: “Eu pertenço, ao mundo da pequena música e tenho experiência suficiente para saber que ela cumpre uma função específica (…). A pequena música é a invenção musical ligada à vida simples, activa, ao dia a dia da gente simples de qualquer estrato social”.
A magia de Carlos Paredes está no que existe além da técnica: a capacidade de comunicação através da música. Sons maravilhosos com que tantas vezes se identificou um povo. Como alguém disse, uma guitarra com gente dentro.

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Sophia de Mello Breyner Adresen

Uma vida à procura da verdade e da beleza

Com 84 anos de idade morreu, no dia 2 de Julho, em Lisboa, Sopfia de Mello Breyner Andresen. A obra que nos deixa, em poesia e em prosa, atesta o lugar entre os maiores da literatura portuguesa de todos os tempos. Na sua vida serviu com perseverança e coerência a verdade e a beleza.
Nasceu no Porto, no dia 6 de Novembro de 1919. Filha de João Henrique Andresen e de Maria Amélia de Mello Breyner, uma leitora assídua e que constantemente motivava a filha Sophia para a boa leitura.
O exemplar sentido de justiça de Sophia, bem como a coragem de que sempre deu provas ao longo da sua vida, são qualidades que nunca escassearam nos vários ramos da sua família. Numa entrevista, aos 81 anos de idade, afirmava: “Gostaria que se realizasse a justiça social, a diminuição das diferenças entre ricos e pobres. Mais justiça para os pobres e menos ambição para os ricos”.
A infância e a adolescência passou-a na quinta portuense do Campo Alegre, adquirida pelo seu avô Andresen no final do século XIX. “Um território fabuloso”, assim a evocaria mais tarde a própria autora. Não se trata simplesmente de uma lembrança fantasiosa de criança, era de facto uma área extensa. Uma parte do que dela resta é hoje o Jardim Botânico do Porto. “Era tão grande a Quinta dos Andresen que o filho primogénito, João Henrique, pai de Sophia, não precisava de galgar os muros para atirar à caça de arribação”, escrevia Fernando Assis Pacheco na “Visão”, em 1995.
A família tinha o costume de organizar lindas festas pelo Natal. Foi nesse clima que Sophia começou a contactar com a poesia. Tinha três anos e ainda não sabia ler, mas um empregada doméstica, desgostosa por ver a menina excluída do elenco dos artistas, ensinou-a a recitar “A Nau Catrineta”.
A sua verdadeira iniciação na poesia portuguesa, ficou a devê-la, no entanto, ao avô materno, Tomás de Mello Breyner, que lhe deu a ler Camões e Antero de Quental.
Em muitos poemas e contos, Sophia faz referência à Quinta do Campo Alegre, sem esquecer a casa de férias na praia da Granja, onde a família passava os verões, “casa branca em frente do mar enorme”, diz o verso inicial de um poema do seu livro de estreia.
Os estudos fê-los no Colégio do Sagrado Coração de Maria, no Porto, onde estudou dos 7 aos 17 anos. Sempre recordou, em muitas entrevistas, com gratidão e apreço as educadoras do colégio, em especial a sua “óptima professora de português”, D. Carolina.
Desde os doze anos que escreve versos e em 1940 publicou os seus primeiros poemas nos “Cadernos de Poesia”. O primeiro livro surge em 1944 e intitulava-se simplesmente “Poesia”. Aqui ficam alguns “recortes poéticos” de Sophia: ” E por isso em cada gesto ponho solenidade e risco”, ” Cortaram os trigos. Agora a minha solidão vê-se melhor”, ” Odiei o que era fácil, procurei-me na luz, no mar no vento”.
Em 1946, casou com o advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares e radicou-se definitivamente em Lisboa. Tiveram cinco filhos.
Na segunda metade dos anos cinquenta, Sophia e Francisco Sousa Tavares começam a manifestar cada vez mais a sua oposição ao regime de Salazar. Em muitos poemas surgem alusões às suas opções políticas. Apoiam a candidatura de Humberto Delgado, em 1958. Anos mais tarde, em 1965, subscrevem o célebre “Manifesto dos 101″, um documento com fortíssimas críticas ao regime, redigido por um grupo de católicos.
Ainda antes do 25 de Abril, Sophia integrou a Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos. Chegou finalmente como escreve Sophia, o momento da Revolução e da “poesia descer à rua”.
Em 1975, foi eleita deputada à Assembleia Constituinte pelo círculo do Porto, nas listas do Partido Socialista. Esta breve experiência parlamentar pôs termo a uma longa e empenhada vida cívica e política e dedicou os últimos 30 anos da sua vida à escrita. Apesar disso, sempre que as causas o justificavam não deixou de intervir publicamente. Recorde-se, a título de exemplo, o apoio à causa timorense, em 1991 e nos anos seguintes. Escreveu então: “A muitos Timor parecerá pequeno e distante. No entanto, é em Timor que neste momento se trava a luta pela dignidade humana”:
Numa das últimas entrevistas afirmava: “Às vezes ao tentar dormir, digo coisas a Deus. Recentemente confessei-me e senti uma alegria diferente. (…) Tenho pena por não ter ido a lugares aonde agora já não conseguirei ir. À Terra Santa, por exemplo”. Nesta mesma entrevista afirmava que o maior pecado ” é não pagar o justo a quem o merece” e a maior virtude “é o amor concreto ao próximo”.
Um dia escreveu: “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar…”. O que sempre moveu Sophia foi a luta pela dignidade humana. A partir das suas profundas convicções de fé católica, procurou sempre e só servir a verdade e a beleza.

Posted by N.M. at 18:49:22 | Permalink | Comments (9)