Friday, March 4, 2005

Irmã Lúcia

Aos 97 anos de idade, faleceu no dia 13 de Fevereiro de 2005, no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra, a Irmã Lúcia. Multiplicaram-se manifestações de admiração e gratidão, a denunciar nostalgia de Deus e a vontade de manter vivos acontecimentos que tornam palpável o sobrenatural, que nos acompanha e não deixa que a vida perca o sentido.

Discreta, sem contacto directo com o exterior, como exigia a sua condição de contemplativa, a irmã Lúcia foi uma humilde religiosa carmelita que não se colocou nos bicos dos pés por ter sido escolhida para uma missão única que ela levou generosamente até ao fim.

Fátima impôs-se à Igreja e ao mundo por caminhos que nada tiveram a ver com projectos programados. É a história, sem preconceitos, que o diz, de modo muito claro. Na sua luz, aparece, o favor divino, a grandeza inocente das crianças, o sentido positivo da pobreza e do apagamento, o apelo à necessidade de conversão interior, o testemunho de simplicidade de um povo crente. Francisco e Jacinta partiram cedo. O povo entendeu o seu regresso. Lúcia ficou e a sua vida escondida foi uma ponte com o céu, que enriqueceu a terra.

“A caminhada de fé – afirmou D.José Policarpo, na homilia da missa exequial - é tantas vezes uma caminhada sofrida, experimentada pela dúvida, pela tentação, pela busca - e nós sabemos, pela história da Irmã Lúcia, ela própria o testemunhou nas suas memórias, nem ela foi dispensada desse tributo à dor, à obscuridade, à busca aflita da luz de Deus.

Logo numa das primeiras aparições, a Lúcia, em nome dos três, perguntou a Nossa Senhora: Vossemecê quem é? E o que quer de nós?”.
A uma vocação corresponde, normalmente, uma missão. A maneira como Lúcia narra nas suas memórias as aparições de Nossa Senhora, na simplicidade de crianças, é tão clara que elas recebem aquela visita inesperada do Céu como uma missão, algo que o Senhor tinha para lhes pedir a elas, uma missão que tem a ver com a missão da Igreja, com aquele Mistério que atravessa a história dos homens que é o projecto de bondade e de amor transformador para todos quantos se quiserem abrir a ele.

“Lúcia é aquela que fala - acrescenta o Cardeal-Patriarca - que comunica e que tem de tal maneira isso a peito como missão que comunica incansavelmente. Espero que muito brevemente possamos ter acesso, com publicações bem preparadas para o povo de Deus, a esse manancial imenso de doutrina espiritual na linha da Mensagem de Fátima que esta mulher tão simples, mas tão grande de coração escreveu. Há uma parte da sua missão que ela levou para o Céu no seu coração. A Mensagem de Fátima permanecerá como um desafio à penitência, à conversão e à contemplação”.

Lúcia faz a síntese dos outros dois Pastorinhos, na medida em que relata com mestria e fidelidade a memória daquilo que ela interiorizou.
O Francisco no princípio não ouvia nem via, a Jacinta via e ouvia, mas não falava. A Lúcia era a voz, a protagonista, pelo que a sua espiritualidade estará sempre dentro destas vivências.

Não poderemos entender a história do século XX sem os acontecimentos de Fátima. Como escreveu há pouco tempo João César das Neves:”O século XX tem Fátima no coração, que constitui a chave interpretativa fundamental para a compreensão do paradoxal século XX. No meio da confusão e do sofrimento dessa época surpreendente, existiu uma linha orientadora, uma porta de salvação, um caminho para a felicidade. E essa via é Fátima”.

A História do nosso país seria completamente diferente sem os efeitos espiritual e moral que Fátima representa. Lá no céu, a Irmã Lúcia certamente pergunta, agora, a Nossa Senhora: “E vossemecê o que quer de Portugal?”

N. M.


 

Posted by N.M. at 19:01:33 | Permalink | Comments (1) »