Pe. Nazareno Beghetto

O força sanante da fé e do amor
Ao receber a notícia da morte do Pe. Nazareno, espontaneamente retirei-me para rezar. Procurei o meu diário de 1998 e assim pude recordar, trazer de novo à memória e ao coração, sete meses que partilhei com este extraordinário padre franciscano.
Nasceu em Brissago, Suíça, a 20 de Janeiro de 1917. Foi baptizado com o nome de Ângelo Beghetto. Entrou para os Frades Franciscanos Conventuais, onde recebeu o nome de Nazareno.
Foi ordenado sacerdote em 1940, em Roma. Depois de ter frequentado os estudos filosóficos e teológicos, dedicou-se ao ensino. Foi Ministro Provincial e Director do “Messagero di S. António”.
Em 1960, foi eleito Ministro Provincial da Província do Oriente e Terra Santa, com sede a Istambul (Turquia). Durante o longo período de permanência no Médio Oriente ocupou-se dos contactos de carácter ecuménico com Protestantes, Ortodoxos, Hebreus, Muçulmanos, tornando-se grande amigo do Patriarca Atenágoras e colaborando activamente para a visita do Paulo VI à Turquia, em 1967.
Participa activamente na vida do Movimento dos Focolares. Os últimos anos da sua vida foram passados em Loppiano, pequena cidade, junto a Florença, onde vivem e se formam os membros deste Movimento.
Em 1998, tive a sorte de permanecer em Loppiano, na Escola Sacerdotal, durante nove meses. Da vida diária, desta escola, faz parte o trabalho manual. Sem esperar, foi-me proposto integrar uma equipa que acompanhava o Pe. Nazareno, acabado de regressar do hospital, após um “AVC” profundo que o tinha paralisado do lado esquerdo e lhe tinha retirado a fala.
Pensei em recusar, pois não me sentia capaz, mas lembrei-me da Palavra de Vida que procurávamos viver naquele mês ’se tiverdes fé como um grão de mostarda ’.
“Ao chegar a casa do Pe. Nazareno escrevi no meu diário de 12 de Outubro de 98 lembrei-me do único e pequeno livro que trouxe e que li na viagem de avião do Porto a Milão. Um livro de H. Nowen, ‘Adam, o Amado de Deus’. Foi uma preparação providencial. Também eu me senti amado. Sem a leitura daquela obra, em que o autor narra tão bem a sua experiência de anos com um doente profundo, tudo teria sido muito mais difícil. O olhar azul e sereno do Pe. Nazareno tocou-me profundamente. Sem palavras comunicou o essencial.”
Em cada manhã, após o “buon giorno!”, dizia ao Pe. Nazareno: “Tenhamos Jesus no meio!”. Como era bom ouvir uma das poucas palavras que pronunciava “Si”. Mas era sobretudo o seu olhar profundo que garantia que, mesmo naquela situação delicada de saúde, estava disposto a escolher e a viver o amor cristão, até ao fim, como Jesus na Cruz.
As palavras “milagrosamente” iam regressando pouco a pouco. Um dia vimos na televisão um programa da RAI, “Porta a Porta”, sobre os 20 anos de pontificado de João Paulo II. Fiquei impressionado e comentei no final para Nazareno: “estou comovido!”. Qual foi o meu espanto ao ouvir da sua boca cristalinamente “anche io!” (também eu!). Este pequeno episódio e tantos outros podem parecer sem importância, mas eram grandes conquistas na evolução do seu estado de saúde.
Notava-se que seguia tudo e todos com atenção e mesmo quase sem palavras, a comunhão que procurávamos viver fazía-nos intuir o que era preciso fazer.
Participava sempre que podia nas actividades de Loppiano. Como se sentia feliz quando ao domingo empurrávamos a cadeira de rodas até ao salão de S.Benedetto, onde se celebrava a Eucaristia! Ficava radiante quando os jovens, de tantas línguas e nacionalidades, o saudavam e brincavam com ele. Aquele sorriso não deixava ninguém indiferente!
Foi precisamente na manhã de 1 de Maio de 2005, em que de tantos pontos de Itália e de outros países, milhares de jovens se juntavam em Loppiano para a já tradicional grande festa da unidade, que o Pe. Nazareno partiu para o Paraíso.
No final do minha estadia em Loppiano, escrevi uma pequena canção, chamada “Véus”, que está gravada no CD “Com Vida” do grupo Vox Populi e que resume um pouco a minha experiência com o Pe. Nazareno: “Um véu de azul escuro/ Te esconde as palavras/ Não estão agora /Onde as encontravas./ Véus transformam-se em velas/ Com o vento do amor/ Navegas para novas Paragens/ Vida nova de outro sabor!/ Véu de amarelo vivo/ Não te deixa cantar/ A voz fica abafada/ E te faz chorar/. Véus transformam-se em velas/ Com o vento do amor/ Navegas para novas Paragens/ Vida nova de outro sabor!/. Véu verde e encarnado/ Nos teus pés formam laços/ Não te deixam correr/ Nem multiplicar os passos./Véus transformam-se em velas/ Com o vento do amor/ Navegas para novas Paragens/ Vida nova de outro sabor!”.
N.M.