2005/11/08

João de Bragança

 

Deus Pregou-me uma Partida

 

 

No livro “Deus Pregou-me uma Partida”, João de Bragança, usando o género epistolar, conta a história de um homem em coma e de tudo o que se passa à sua volta, sobretudo com a sua esposa e familiares. Fala-nos de maneira densa e criativa do amor, da esperança, da amizade, do sentido da vida, da fé, do sofrimento e da morte.

 

 

João de Bragança é formado em Engenharia Mecânica. A sua carreira profissional tem passado essencialmente por unidades industriais.

Rita Jonet, co-autora, é licenciada em Psicologia, na área da Psicoterapia e Aconselhamento Educacional e desenvolve a sua actividade como psicóloga educacional e professora na área da psicogénese da leitura e da escrita.

São autores de um livro de ficção, mas escrito a partir da experiência bem real e dura da morte da filha de João Bragança, Madalena, com sete anos de idade. Foi ela a verdadeira fonte de inspiração para a escrita do livro, “suficientemente crescida para ver o mundo com olhos de criança, demasiadamente nova para ser confrontada com uma doença injusta”.

 A intensidade e profundidade da leitura deste livro advêm, sobretudo, da invulgar sensibilidade dos seus autores e da experiência de João de Bragança. Somos convidados, página a página, a trilhar os imperceptíveis, mas decisivos caminhos seguidos pela alma humana no confronto com a possibilidade da perda de um ente querido.

“Eu descobri o amor de Deus – afirma João de Bragança -  na fase mais dolorosa e difícil. E quando falo no amor de Deus, falo na importância de Deus na minha vida. Parecia que tudo estava garantido. De repente cai-nos uma bomba em cima e a primeira coisa que perguntamos é “porquê?” Porquê uma criança tão pequena atingida por uma doença irreversível? Questionamos tudo? Foi uma graça de Deus e fruto também da ajuda de tantos, não me ter deixado vencer pela raiva e pela revolta. Por outro lado, tive sempre bem claro dentro de mim que a Madalena, a minha filha, não me pertencia… ! Foi a única filha a quem fiz versos! Suportou a doença com uma serenidade extraordinária. Ainda me lembro de estar com ela sentada ao meu colo a rezar o terço, tinha então seis anos…”

Assim se revela uma narrativa original e cativante que, entretecendo de forma ímpar o estilo confessional e a reflexão filosófica e espiritual acerca da vida e da fé, se deixa perpassar simultaneamente por uma singular expressividade poética.

O autor confessa que quando olha para o seu livro, é como se não tivesse sido escrito por ele, mas para ele. Acrescenta que a escrita ao longo de dois anos, em pleno luto, foi uma autêntica terapia e de redescoberta da fé: “Um crente percebe com mais facilidade do que um não crente que é possível encontrar Deus no sofrimento. Achamos sempre que encontramos o amor de Deus nas coisas boas que nos acontecem, nos sucessos e nos momentos felizes, mas na verdade podemos encontrar o amor de Deus nos insucessos, nas tristezas, no sofrimento e na morte.

Descobri o essencial, aprendi a separá-lo do acessório. É importante quando deixamos de perguntar porque é que as coisas nos acontecem e passamos a perguntar para que é que as coisas nos acontecem, ou seja, o que podemos fazer com os acontecimentos. O “porquê” muitas vezes não tem resposta…”.

João de Bragança gostaria muito mais que a sua filha estivesse ainda entre nós, mas afirma também com muita clareza: “Acho que ela veio cumprir uma missão e regressou a casa e deixou-nos uma semente extraordinária. Acredito que a morte não é o fim, mas o princípio da nossa eternidade. Acredito que a minha filha está no Céu a olhar por nós e para nós”.

Vale a pena ler esta obra das edições Lucerna.  É sobretudo um livro sobre a esperança, a partir da situação dramática da doença e da morte. Ajuda-nos a repensar tudo, a redescobrir o efeito transformador do sofrimento, a rever prioridades e a maneira como olhamos os outros, o mundo e a vida.

Este testemunho tão eloquente aponta para o acontecimento da cruz de Jesus Cristo, como um grande evento relacional, determinado não só pelo amor mais profundo, mas também pela vontade radical de condivisão, de partilha e de comunhão até ao fim. É nesta “escola” que se aprende a enfrentar os dramas da vida, a encontrar o seu significado e ainda a ter a força de partilhar tudo com os outros.

N.M.

Escrito por N.M. em 23:14:36 | Link permanente | Comments (0) |