Tuesday, December 6, 2005

Charles de Foucauld

Charles de Foucauld foi beatificado, em Roma, no passado dia 13 de Novembro. Vale a pena, em tempo de Natal, conhecer um pouco melhor este homem que escolheu renunciar à sua fortuna e a uma vida cómoda para viver no meio dos mais pobres. Na sua conversão, foi importante a visita a Belém, a Nazaré e a Jerusalém, onde descobre o “mistério da humildade”.

 

 

Charles conheceu bem cedo a mais profunda solidão, pois com apenas cinco anos vê morrer a sua mãe e logo a seguir o seu pai, ficando ao cuidado do seu avô materno. Teve uma vida profundamente marcada por perdas sucessivas.

Quem o conheceu intimamente, afirma que guardará em toda a sua vida essa mágoa profunda pela imensa saudade dos primeiros anos em que vivera com a sua mãe. Não admira, por isso, que vá crescendo como uma criança séria, triste, dada ao silêncio, ávida de solidão e de recolhimento, mesmo se, na escola, foi sempre um aluno inteligente e aplicado.

É acolhido em casa da sua tia Inês, que o recebe como um filho e onde volta a encontrar a sensação de paz e de pertença dos primeiros anos.

Cultiva um relacionamento de amizade profunda com a sua prima Marie, que a pouco e pouco faz germinar em Charles o espírito religioso e a prática de oração. A guerra afasta-os e à medida que percorre a adolescência e juventude vai adormecendo nele a fé, abandonando a prática religiosa. Viveu vários anos num profundo cepticismo, que a morte de seu avô, aos dezanove anos só vem piorar ainda mais.

Lança-se numa vida mundana, em múltiplas festas; enquanto gasta rapidamente a sua imensa fortuna. Torna-se, entretanto, oficial do exército, mas com vinte e dois anos abandona-o por “indisciplina e falta de conduta notórias”. Foi reintegrado logo a seguir e parte para África.

Deixa-se conquistar por África, onde descobre a fraternidade das armas e o confronto com a grandeza  e o silêncio dos imensos espaços africanos.

Experimenta mais uma verdadeira reviravolta na sua vida: decide inesperadamente deixar o exército e instalar-se na Argélia, onde começa a aprender árabe. Recolhe muitos e úteis dados sobre o deserto, que lhe valem, em França, uma medalha de ouro da Sociedade da Geografia, pelo interesse e qualidade do seu relatório.

Esta incursão no deserto mudou definitivamente a vida de Charles. Reencontra-se com Deus e com o seu lado místico há tanto tempo adormecido. “Assim que acreditei de verdade – escreve- que havia um Deus, compreendi que não podia fazer outra coisa senão viver exclusivamente por Ele”. Foi isso que fez, até ao fim, procurando dar testemunho aos outros através do seu comportamento da sua fé profunda em Deus-Amor.

Num tempo em que prolifera uma mentalidade narcísica e autocentrada, a proposta de vida de Charles de Focauld é particularmente actual. Com a sua beatificação a Igreja quer proclamar a felicidade do caminho humilde que passa por Belém, Nazaré e Jerusalém, que é a felicidade da escolha de dar aos outros o primeiro lugar.

Charles de Focauld não deixando seguidores directos, pôde ver lá do Céu,  o nascimento de congregações de padres, religiosos e leigos em todo o mundo que são hoje o seu vivo legado espiritual.

No dia em que foi morto, numa carta dirigida a sua prima, Marie de Bondy, Charles de Focauld afirmava que a disponibilidade para “sofrer e amar” concede um enorme poder, “o maior do mundo” e que permite chegar à união com Jesus e fazer o bem a todos.. Nesse mesmo dia, escreveu também a um amigo: “Jamais devemos hesitar na escolha de postos em que o perigo, o sacrifício e a entrega devota sejam maiores. Deixemos a honra para quem a quer, mas o perigo e a dor reclamemo-los sempre”.

Estávamos no primeiro dia de Dezembro de 1916. O monge eremita Charles de Focauld foi surpreendido por um grupo de tuaregues rebeldes, na sua modestíssima casa em Tamanrassere, Argélia, e é assassinado. Sem resistir, deixa-se prender, amarrar e matar; em silêncio e numa solidão total, no coração do deserto que tanto amara.

Posted by N.M. at 23:04:35 | Permalink | No Comments »