Sunday, October 8, 2006

Ernâni Lopes

Ernâni Lopes fala sem preconceitos de experiências profundas, como a da sua doença, das suas convicções religiosas, da ligação ao Opus Dei, da família e da sua visão do mundo.

 

Nasceu em Lisboa há 64 anos. Do seu casamento nasceram quatro filhos e pode jogar e alegrar-se com seis netos. Doutorou-se em Economia pela Universidade Católica, em 1982. Ocupou diversos cargos de grande responsabilidade, tais como o de ministro das Finanças (1983/85) e chefe da Missão de Portugal junto das Comunidades Europeias, em Bruxelas (1979/83). A propósito da sua experiência de governante, afirma: ”Nenhuma destas situações foi procurada por mim. Tenho consciência que só poderia exercer estas missões, naquele momento, alguém que soubesse bem o que ia fazer e assumisse uma atitude interior de despojamento total, para aguentar a pressão e não fazer cedências”. Procura cultivar, assim, nos diversos lugares por onde tem passado o espírito de missão.

Sem ser membro do Opus Dei, recebeu formação e participa nas suas actividades, manifestando grande apreço por esta obra da Igreja.

Em Outubro de 2005, foi-lhe diagnosticada uma doença cancerosa, na medula. Assume publicamente a sua doença. Era nesta ocasião presidente da PT, por isso comunica logo a seguir, aos colegas, o seu estado de saúde. “Graças a Deus – diz o Economista – a doença está agora controlada (…). Os médicos nunca falam de cura. O termo técnico é “remissão completa”. Vamos ter prudência com o verbo curar”.

Da sua passagem pelo IPO recorda a solidariedade entre todos, bem como a perplexidade e sofrimento que sentiu ao ver crianças inocentes a sofrer. Afirma ainda:”Uma das coisas que mais me chamou a atenção no IPO é que em vez de estar centrado no médico, o instituto está centrado no doente”.

Quem sofre desta doença sabe que o momento crucial é o do diagnóstico, pois tudo muda na vida: “Depois ganhamos distanciamento - acrescenta - em relação à realidade e uma profundidade de leitura que não se consegue obter por simples estudo, ou trabalho académico. É uma questão de vivência interior. E percebe-se, como nunca noutras condições, a natureza da realidade e vê-se o que há de profundamente igual entre todos os seres humanos, filhos de Deus”.

A doença – afirma – foi, a nível espiritual, uma das maiores bênçãos de Deus que tive na minha vida, porque me levou a um aprofundamento da vida religiosa e da dimensão espiritual”. Na sua vida de cada dia a fé continua a ser “uma trave-mestra”.

Ao referir a sua experiência como economista chamado a exercer cargos públicos, diz: “No plano da vida civil há duas coisas que não se podem pôr na penumbra: a responsabilidade de cidadania e o sentido de Estado. A vida colectiva assenta nestes dois conceitos. Se tentamos construí-la na base da golpada, do compadrio e da irresponsabilidade, para efeitos de folclore mediático, é tudo mentira”.

Preocupa-o muito o que se passa com as novas gerações, pois “a escola deixou de transmitir valores, atitudes e padrões de comportamento. A família vive um período de grande turbulência e perdeu grande parte desse papel”.

 

 (Expresso –Única,  de 30 de Setembro de 2006)

 

 

 

 

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Magdi, Jim e … Verónica

  

Um casal do Canadá tem de escolher, por causa de doença grave, entre a vida da mãe e a da criança. Nunca tinham sequer imaginado que pudessem ser confrontados com uma tal decisão. Como as crianças que não têm medo de pedir coisas grandes e humanamente impossíveis, assim eles confiaram no amor de Deus.

 

 

Magdi vive com o seu marido Jim, em Clagary, no norte do Canadá. No Outono de 2003, receberam com grande alegria a notícia da gravidez. Como Magdi tinha tido já abortos espontâneos a alegria mistura-se com algum temor e preocupação.

Para além dos normais sintomas da gravidez, Magdi começa a sentir-se sempre mais cansada e pálida. Depois de algumas semanas uma forte dor, “uma dor abençoada”, permite diagnosticar o cancro já em estado avançado.

“Fiquei profundamente chocada – diz Magdi – e surgiram, dentro de mim, mil perguntas. Mas a mais forte era muito simples: o que iria acontecer ao nosso menino?”

Os médicos aconselhavam a quimioterapia imediatamente, mesmo se o bebé pudesse sofrer com isso. “Tinha medo – explica Magdi – pois para mim o valor da sua vida era o mesmo da minha. Voltava sempre ao meu pensamento que aquela frágil criatura dependia totalmente de mim”.

Os médicos insistem no aborto terapêutico, tal era a gravidade da situação e perante a possibilidade de não se salvar nem a mãe, nem o filho. Era um dilema terrível, que envolvia também Jim: “Não estava de acordo com a decisão da minha esposa de optar pela criança – recorda – mesmo se saberia que ficaria sempre profundamente afectada ao recordar que tinha sobrevivido e o nosso filho não. Nunca poderia imaginar que pudesse ser confrontado com uma tal decisão. Pensei que devia pedir a Deus coisas grandes, como fazem as crianças. Para elas não conta quanto custa ou se é inatingível o que desejam, simplesmente pedem e confiam”.

Perante a clareza da opção de Magdi pela vida do bebé, foram tentados alguns tratamentos menos drásticos e que parecia travar o desenvolvimento do tumor. Assim foi possível que a criança se desenvolvesse e aos seis meses nascesse a Verónica de óptima saúde.

Foi baptizada a 25 de Julho. Nesse dia, Magdi voltou a sentir-se muito cansada e pressente que a doença tenha regressado em força. Teve de submeter-se a quimioterapia muito forte. A sua fé parece vacilar: “Sentia-me doente no corpo e na alma – confessa – tinha em casa uma menina acabada de nascer que precisava de todo o meu amor e dos meus cuidados. Queria viver para ela e vê-la crescer… . Parecia que Deus me tivesse abandonado…”.

No meio de tantas perguntas e angústias, Magdi sentia renovado o chamamento a reconhecer o rosto de Jesus Abandonado e pede uma ajuda especial a Maria para os tratamentos a que tem de se submeter.

Jim, entretanto, dividia o seu tempo entre o trabalho, o cuidado da menina e a assistência à mãe.

O receberem diariamente a Eucaristia, a luz da Palavra de Vida, a presença de Jesus na família, o apoio constante dos amigos e da comunidade cristã permitiu ir superando tantos obstáculos que pareciam humanamente intransponíveis.

A certeza do amor de Deus floresce no coração de Magdi, ao ponto de não lhe importar saber se estava ou não curada: “Estou serena – dizia – acreditar no amor de Deus é tão importante e decisivo para mim como saber se estou ou não curada”.

Realizaram-se as melhores expectativas. Mesmo se permanece sempre alguma ansiedade e temor, no momento dos controles periódicos da doença, tudo tem corrido bem: “Os acontecimentos em que estamos envolvidos – diz Jim – têm avivado em nós a certeza e a consciência clara de que  estamos nas mãos de Deus”.

 

  

Città Nuova, 14 (2006)

Posted by N.M. at 17:29:50 | Permalink | No Comments »