2006/03/10

Josefina Bakhita

A Irmã Morena

Bakhita não é o nome recebido de seus pais ao nascer. O susto provado no dia em que foi raptada, provocou-lhe profundos lapsos de memória, ao ponto de esquecer também o próprio nome. Bakhita, que significa «afortunada», é o nome que lhe foi imposto pelos seus raptores.

 

Josefina Bakhita nasceu no Sudão (África), em 1869 e morreu em Schio (Vicenza-Itália), em 1947. Em Schio, onde viveu durante muitos anos, todos a conheciam por “a nossa Irmã Morena”. É assim que ainda hoje continuam a chamar Santa Bakhita.

A sua vida foi marcada por grandes sofrimentos. Sequestrada e feita escrava quando era criança, torturada, vendida várias vezes nos mercados de Obeidh y Khartum, no Sudão, sua terra natal, foi resgatada pelo cônsul italiano, Calixto Legnani, em 1882.  Pela primeira vez, desde o dia em que fora raptada, percebeu com agradável surpresa, que ninguém usava o chicote para lhe dar ordens mas, ao contrário, era tratada com maneiras afáveis e cordiais. Na casa do Cônsul, Bakhita encontrou serenidade, carinho e momentos de alegria, ainda que sempre velados pela saudade de sua própria família, talvez perdida para sempre.

É acolhida, mais tarde, pelas irmãs canossianas de Schio (Itália), recebeu o baptismo com 21 anos e aos 27 decidiu ser freira canossiana. O seu itinerário foi realmente duro, e não basta a sua bondade natural para explicar a compaixão que mostrou pelos que a tinham feito sofrer. O seu perdão era a expressão de uma caridade que só pode vir de Deus.

Depois de alguns meses de catecumenado, Bakhita recebeu os Sacramentos da Iniciação Cristã e o novo nome de Josefina. Era o dia 9 de Janeiro de 1890. Naquele dia não sabia como exprimir a sua alegria. Os seus olhos grandes e expressivos brilhavam revelando uma intensa comoção. Desse dia em diante, era fácil vê-la beijar a pia baptismal e dizer: «Aqui me tornei filha de Deus!».

Cada novo dia a tornava sempre mais consciente de como aquele Deus, que agora conhecia e amava, a havia conduzido a Si por caminhos misteriosos, segurando-a pela mão.

Bakhita continuou no Catecumenado, onde sentiu com muita clareza o chamado para se tornar religiosa e doar-se totalmente ao Senhor, no Instituto de Santa Madalena de Canossa.

A 8 de dezembro de 1896, Josefina Bakhita  consagrava-se para sempre ao seu Deus, que ela chamava com carinho «el me Paron!».

Durante mais de 50 anos, esta humilde Filha da Caridade, verdadeira testemunha do amor de Deus, dedicou-se às diversas ocupações na casa de Schio. De fato, ela foi cozinheira, responsável do guarda-roupa, bordadeira, sacristã e porteira. Quando se dedicou a este último serviço, as suas mãos pousavam docemente sobre a cabecinha das crianças que, diariamente, frequentavam as escolas do Instituto. A sua voz amável, que tinha a inflexão das cantigas da sua terra, chegava suave aos pequeninos, reconfortante aos pobres e doentes e encorajadora para todos os que vinham bater à porta do Instituto.

A sua humildade, a sua simplicidade e o seu constante sorriso, conquistaram o coração de todos os habitantes de Schio. As Irmãs estimavam-na pela sua inalterável afabilidade, pela fineza da sua bondade e pelo seu profundo desejo de tornar Jesus conhecido.

Muitas vezes repetiu: «Sede bons, amai a Deus, rezai por aqueles que não O conhecem. Se, soubésseis que grande graça é conhecer a Deus!».

Chegou a velhice, chegou a doença longa e dolorosa, mas a Irmã Bakhita continuou a oferecer o seu testemunho de fé, de bondade e de esperança cristã. A quem a visitava e lhe perguntava como se sentia, respondia sorridente: «Como o Patrão quer».

Na agonia reviveu os terríveis anos de sua escravidão e várias vezes suplicava à enfermeira que a assistia: «Solta-me as correntes ... pesam muito!».

Foi Maria Santíssima que a livrou de todos os sofrimentos. As suas últimas palavras foram: «Nossa Senhora! Nossa Senhora!», enquanto o seu último sorriso testemunhava o encontro com a Mãe de Jesus.

Irmã Bakhita faleceu no dia 8 de fevereiro de 1947, na Casa de Schio, rodeada pela comunidade em pranto e em oração. Uma multidão acorreu logo à casa do Instituto para ver pela última vez a sua «Santa Irmã Morena», e pedir-lhe a sua protecção lá do céu. Muitas são as graças alcançadas por sua intercessão.

Foi beatificada, juntamente com o beato Josemaría Escrivà, fundador do Opus Dei, em 17 de Maio de 1992. O Papa João Paulo II canonizou-a em 1 de Outubro do ano 2000 e fixou a sua festa litúrgica no dia 8 de Fevereiro.

Em Santa Bahkita vemos a personificação do paradoxo cristão da liberdade. Quando teve finalmente a  possibilidade de orientar com autonomia a sua própria vida, encontrou outro "Patrão" (assim chamava a Deus) e deu-lhe, mais do que o seu trabalho, o palpitar mais profundo do seu coração e todos os seus pensamentos. Assim, enquanto realizava com alegria as tarefas mais humildes, foi capaz de prodigalizar ternura e carinho a mãos cheias, com sobriedade e simplicidade. Renovar o próprio sim ao Senhor cada dia, para ela,  não significava esquecer o passado, mas antes transfigurá-lo, redimi-lo com a liberdade do amor.

Bakhita, no final da sua vida, expressava com estas simples palavras, escondidas detrás de um sorriso, a odisseia da sua vida: "Vou devagar, passo a passo, porque levo duas grandes malas: numa vão os meus pecados, e na outra, muito mais pesada, os méritos infinitos de Jesus. Quando chegar ao céu abrirei as malas e direi a Deus: Pai eterno, agora podes julgar. E a São Pedro: fecha a porta, porque fico!"

 

 

 

Escrito por N.M. em 16:39:31 | Link permanente | Comments (1) |