D.António Marto

Tive o privilégio de acompanhar, no dia a dia, o trabalho pastoral de D.António Marto. Foram dois anos vividos na simplicidade e na alegria de uma família, tendo sido testemunha de tantas maravilhas. Mesmo se passaram tão depressa, não há palavras para agradecer tudo o que Deus nos concedeu através do ministério de D.António Marto, que se despede de Viseu no próximo dia 18 de Junho e entra em Leiria-Fátima no domingo seguinte.
António Augusto dos Santos Marto, actual administrador apostólico de Viseu, e bispo nomeado de Leiria-Fátima, nasceu a 5 de Maio de 1947, em Tronco, concelho de Chaves. No Seminário da Diocese, Vila Real, fez os estudos humanístico-teológicos, que prosseguiu no Seminário Maior do Porto. Foi ordenado em Roma em 1971 e aí se doutorou em 1977, na Universidade Gregoriana, com a tese sobre “Esperança cristã e futuro do homem. Doutrina escatológica do Concílio Vaticano II”.
A partir deste ano e já em Portugal, dedicou-se à formação no Seminário da Diocese do Porto, acompanhando os alunos de Vila Real e ao ensino superior, em especial no Centro Regional da Universidade Católica, sendo Director-Adjunto da Faculdade de Teologia quando foi nomeado bispo auxiliar de Braga, no ano 2000. A ordenação episcopal celebrou-se em Vila Real, a 11 de Fevereiro de 2001, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição.
Para além da actividade académica, das suas actividades pastorais, destacam-se: colaborador regular na paróquia de Nossa Senhora da Conceição, no Porto, e na paróquia do Bom Jesus de Matosinhos. Trabalhou com o Movimento de Estudantes Católicos (MCE) e com a Liga Operária Católica (LOC). Trabalhou também na catequese de adultos, na Diocese do Porto e, em colaboração com D.Manuel Pelino, publicou o livro “Catequese para o Povo de Deus, em dois volumes.
Tem ocupado diversos cargos na Conferência Episcopal. Desde 2002, assegura a presidência da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé e Ecumenismo. Foi vogal da Comissão para Educação Cristã, durante dois mandatos e da Comissão Fé e Cultura. É actualmente membro do Conselho Permanente. Representou a Conferência Episcopal Portuguesa, no Sínodo dos Bispos de Outubro de 2005, sobre a Eucaristia.
A maior parte do tempo destes dois anos, como bispo de Viseu, foi ocupada em visitas às paróquias, tanto para o sacramento do Crisma como para celebrar acontecimentos significativos da vida das comunidades, tendo começado, em Novembro passado, as visitas pastorais aos arciprestados de Oliveira de Frades e a Vouzela.
Na visita a cada paróquia, descobri e vi em acção um Bispo alegre e apaixonado pela Palavra de Deus, que procura vivê-la e ensiná-la de maneira excelente e fui vendo concretizar-se as palavras da homilia da tomada de posse: “Despertar a fé viva em Cristo vivo e torná-lo inesquecível é a missão primeira e mais sagrada dum bispo. Esta é a paixão que o vosso bispo traz no coração. Esta é a razão do lema do seu ministério: ‘servidores da vossa alegria’ – a alegria do Evangelho!”. Nasceram, no contexto da visita pastoral, as Comunidades de Leitura Orante da Bíblia, uma experiência surpreendente e maravilhosa.
“Estamos a assistir a uma viragem epocal, - afirmou D.António Marto ao chegar a Viseu - marcada por mutações culturais profundas que levam a viver a fé num contexto novo e, nalguns aspectos, inédito, como sejam: o pluralismo social, cultural e religioso, a confusão de valores, a cultura do vazio e do efémero, a indiferença religiosa, a perda da memória cristã, o analfabetismo religioso. Tudo isto tem provocado a erosão interna da fé de muitos cristãos, reduzindo-a a uma religiosidade vaga e superficial, a uma realidade repetitiva, sem encanto nem beleza, sem frescura, sem alegria, sem entusiasmo”. Afirmando muitas vezes que o maior inimigo da fé é a ignorância religiosa, procurou lançar sementes e estruturas de formação, como a Escola de Educação Cristã. Deixa-nos dois preciosos livros: “Eucaristia e Beleza de Deus” e “Fátima e a Modernidade” e ainda muitas conferências e homilias, parte delas publicadas na revista “Igreja Diocesana”.
O Senhor Bispo cultivou sempre uma relação de amizade sincera e profunda com os seus padres. Bastava ver o rosto dos sacerdotes quando chegavam à Casa Episcopal e quando saíam, sempre mais felizes! Mas ao mesmo tempo para além de apoiar soube sempre desafiar: “Ninguém escolhe o mundo em que tem de viver e realizar a sua missão. Desejaria que os padres aprendessem a viver profundamente uma espiritualidade marcada pelo encanto por Jesus Cristo. Precisamos absolutamente de espiritualidade pois corremos o risco de nos tornarmos máquinas que trabalham 24 horas por dia. Padres culturalmente bem formados, que conheçam bem a cultura o mundo moderno para puderem dialogar com ele. Padres com solidez doutrinal e por conseguinte estejam bem preparados pelo estudo da teologia para poder responder e corresponder aos problemas que estão presentes no coração das pessoas, na sua vida quotidiana e na vida da sociedade. Padres que tenham um grande sentido da comunhão, ajudem a construir uma igreja casa e escola de comunhão, que promovam a corresponsabilidade dos serviços e ministérios laicais e tenham um sentido de comunhão no presbitério. Não é um padre isolado que recebe a missão de Cristo e da Igreja, mas enquanto inserido num presbitério, com um Bispo. É aí que encontramos elán e impulso interior para trabalhar em comunhão”
Não admira pois que das muitas alegrias que D.António Marto experimentou aqui, ele destaque precisamente: “A alegria da comunhão com o clero que comigo se manifestou sempre disponível e colaborador para além da amizade que dedica ao Bispo. Também a alegria da comunhão com o povo humilde, simples, afectuoso, que sinto nas visitas que faço às comunidades cristãs, admiro imenso, fico maravilhado com a espontaneidade com que as pessoas conversam com o Bispo e lhe abrem o coração”.
D.António Marto ensinou-nos que o pior que pôde acontecer ao cristianismo foi ter perdido a dimensão mística da fé, reduzindo-a a um moralismo, a uma lista de deveres, obrigações e proibições ou a um mero humanismo simpático. Ora, quando se reduz a fé a coisas ou a um fardo não se lhe encontra beleza nem se lhe descobre encanto. Por isso não se cansou de proclamou pelos caminhos da diocese a beleza da fé e do amor que salva e embeleza a vida e o mundo dos homens, chamando ainda a atenção: “Não há qualidade de vida sem vida espiritual de qualidade. Por isso, a santidade de vida é a realidade mais necessária para a qualidade humana da sociedade, das relações entre as pessoas e os povos, para uma autêntica humanização do mundo. A espiritualidade é uma realidade profunda que move a história. O homem é aquilo que é o seu coração. E a nossa história é a projecção visível do que acontece no íntimo das consciências. A própria saúde do cristianismo (da fé e da Igreja) depende da santidade dos cristãos. E a saúde do mundo depende, em boa parte, da saúde do cristianismo”.
Não se apagará da memória e do coração o testemunho e o desafio que D.António Marto nos lançou em tantas circunstâncias: “A Igreja é chamada, hoje, na sua missão, a recomeçar a partir de Cristo, do Seu Evangelho, da pessoa humana e da sua dignidade e liberdade, tal como fizeram os primeiros cristãos. Vivamos por uma Igreja casa e escola de comunhão, casa do encontro com Deus e com os homens, que acolhe igualmente jovens e idosos, que educa todos os seus filhos na fé e na caridade, que deseja valorizar todos os carismas e ministérios para viver e servir a alegria da comunhão. Uma Igreja que aprende a usar a linguagem da beleza como porta de acesso ao mistério de Deus e ao mistério da interioridade do homem; promotora de uma nova civilização da Beleza e do Amor”.










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Simplesmente venero.a !