Monday, October 29, 2007

Gilles Lipovetsky

 

 

Deu muito que falar com a obra a Era do Vazio. Na seu mais recente livro, A Felicidade Paradoxal, explica que a sociedade evoluiu para o hiperconsumo e surgiu o homo consumericus. A nossa civilização, no dizer de Lipovetsky, teria tudo para ser feliz. Mas não é!

 

 

Gilles Lipovetsky tem 63 anos. Filósofo e professor na Universidade de Grenoble, França, elevou o consumo, a moda, o efémero, o luxo e o individualismo a objecto de análise filosófica. A sua reflexão sobre a sociedade pós-moderna, ou hiper-moderna, rompeu as fronteiras da academia e conquistou o mundo.

Lipovetsky oferece-nos uma vasta obra traduzida em 18 línguas. Em Portugal, estreou-se na década de oitenta com o seu livro mais conhecido A Era do Vazio, seguindo-se o Império do Efémero, a Terceira Mulher, O Crepúsculo do Dever e o mais recente A Felicidade Paradoxal (Edições 70), lançado este ano.

A sociedade em que vivemos obriga-nos a actualizar o postulado de Descartes para consumo, logo existo. “Felizmente, não é bem assim – adverte, no entanto, Lipovetsky. - Seria uma pena se toda a existência se reduzisse ao consumo. (…). O bem, o mal, o amor, a generosidade, a solidariedade, não são bens de mercado”, pois  “apesar de quase todos os domínios da nossa vida estarem colonizados pela lógica do consumo, este não é a nossa razão de existir, nem é em função dele que organizamos a nossa existência”.

Surge, no entanto, o homo consumericus, em que o indivíduo deixa de consumir para mostrar aos outros e passa a consumir para se relacionar consigo próprio: “Na fase anterior do capitalismo o primado pertencia à identidade social e económica, hoje, é a identidade individual que conta”. As pessoas através do consumo, procuram dizer “eu”, ou seja, o consumo vai substituindo as tradições e a religião na formação da identidade.

Dá-se cada vez mais importância à dimensão hedonista do consumo, pois o que os consumidores procuram é o prazer e já não apenas a satisfação das necessidade básicas: ”O hiperconsumidor do presente procura viver novas experiências, melhorar a sua qualidade de vida, conservar a juventude e a saúde…, é algo para si e para um pequeno mundo à sua volta, pois as pessoas duvidam de si próprias e procuram segurança nas marcas de luxo que no fundo as valorizam, não só aos olhos dos outros como aos seus próprios olhos”.

Numa sondagem sobre a felicidade realizada em vários países da Europa, oitenta a noventa por cento das pessoas afirmavam ser felizes em todos os aspectos da vida. A par disso, aumentam as depressões, o stress, a ansiedade, as tentativas de suicídio, o consumo de ansiolíticos e antidepressivos e, segundo várias sondagens, metade das pessoas são infelizes na vida sexual.

Temos acesso a muitas coisas, mas isso não corresponde a mais felicidade. A felicidade paradoxal é essa tensão entre o que deveria, em princípio, fazer-nos felizes, essa potencialidade de felicidade e a realidade muito mais complexa e problemática da existência dos indivíduos.

Porque é que as pessoas não são felizes? A grande lição a tirar de tudo isto, segundo o filósofo é a seguinte: “Não temos grande poder sobre a felicidade, esta não depende de nós. Não somos nós que a controlamos, é ela que nos controla a nós. (…). Estou convencido de que o nosso poder sobre a felicidade é muito pequeno e isso dá uma lição de humildade aos modernos. Não há solução para a alegria de viver, é um mistério!”

Uma das causas de decepção, segundo Lipovetsky, está relacionada com as exageradas expectativas que cada um cria em relação, por exemplo, ao trabalho e ao amor, mas o  mal-estar do indivíduo prende-se sobretudo, na opinião de Lipovetsky, com o cada vez maior isolamento, pois “antigamente, havia a religião e a comunidade, que davam força. Hoje, há uma individualização que fragiliza as pessoas”.

Trata-se de procurar no consumo o que não se encontra na existência, no trabalho, na vida amorosa. Por isso este assume muitos vezes uma função terapêutica no mar da solidão:” É uma pequena droga, equivalente à missa de antigamente. Antes, quando tínhamos problemas, íamos à igreja pedir ajuda e conforto a Deus. Hoje, para esquecer os problemas, fazemos uma viagem, compramos roupas, vamos ao cabeleireiro. É uma forma de voltar a si”.

Daqui a alguns anos, os nossos vindouros olharão com estranheza para esta sociedade, pois, segundo Lipovetsky tem de haver outros valores e mais vida para além do consumo.

 

(Baseado em entrevista à Notícias Magazine de 04.10.2007)

 

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Saturday, October 6, 2007

Catalina Pestana

 

 

Catalina Pestana tinha decidido dedicar-se a ser avó a tempo inteiro, mas um convite inesperado fez mudar os seus planos de vida aos 55 anos. Desde o dia 5 de Dezembro de 2002 a Maio de 2007, foi a provedora da Casa Pia, uma instituição centenária e solidária, que é notícia permanente dos telejornais, pois “continua a haver abusadores dentro da Casa Pia e redes externas que usam os miúdos para abusos sexuais”.

Quando disse “sim” ao ministro Bagão Félix, sabia, naturalmente, que como provedora da Casa Pia, nas circunstâncias em que se encontrava esta instituição, a esperava algo de muito difícil. «Mas nunca nada do que imaginamos – afirma - é tão duro quanto a realidade!».

Foi ouvindo a primeira, a segunda, a terceira história, até lhes ter perdido a conta. Durante longos e pesados meses, as memórias de abusos repetiram-se, cheias de pormenor, de ansiedade, de medo. E cada um que vinha contava o que tinha acontecido, onde e quando e com quem, mas sem se perceber porquê. Ao ponto de o seu estômago, por vezes, não ter aguentado. «Mas é preciso ouvir o vigésimo quinto como se ouviu o primeiro - diz Catalina - , com a mesma atenção, o mesmo carinho, sobretudo com o sentido de que só assim estava a ser possível dar um certo alívio a esta gente».

Reconhece que recaiam sobre si «expectativas demasiado altas» e havia tanto para fazer! Mas nunca foi o «fazer coisas» que a assusta. Pelo contrário: «Arregaçar as mangas e pôr as coisas a andar foi sempre o que mais me entusiasmou, - diz a ex- provedora- é nisso que ainda hoje me sinto bem». O problema é o resto, aquele lado sombrio da Casa Pia que tem sustentado a agitação, a insegurança e a decepção internas e que tem impedido de começar a organizar o futuro. É muito clara ao afirmar: «Isto ainda está longe do fim».

Aos netos, durante o intenso trabalho como provedora, viu-os muito menos, claro. «E, felizmente, não tinham sequer idade para perceber o que se estava a passar». Por isso, quando eles a viam na televisão, limitavam-se a chamá-la, a querer falar com ela pelo ecrã — sem perguntas incómodas nem dúvidas inocentes.

Antes da ida para a Casa Pia, já Catalina Pestana tinha cruzado os caminhos da instituição. Na década de oitenta, foi professora no Colégio de Santa Catarina e não recorda, desse tempo, qualquer tipo de histórias sórdidas, bem pelo contrário.

O pai era operário dos mármores, mas também «um poeta louco», militante da LUAR (Liga de Unidade Acção Revolucionária, organização antifascista liderada por Palma Inácio). Em vésperas do 25 de Abril, ainda se mantinha na clandestinidade «Nós não sabíamos quais eram exactamente as actividades dele. Mas sempre tivemos noção exacta do que era o regime e de que existia a repressão», conta. De facto, Catalina e a irmã cresceram entre Pero Pinheiro, o Barreiro e Algés, a ouvir falar abertamente de política, a conhecer o mundo pelo som das rádios independentes da onda curta, a aprender e a gostar de teatro e poesia. “Herdei uma cultura operária – diz Catalina. O meu pai falava aos trabalhadores e convocava greves (…). Andava a declamar poesia pela país. Parecia uma boneca de corda. Depois percebi que era para camuflar as reuniões dos comités do PCP”.

A isso tudo, Catalina ainda junto curso de Filosofia e o alinhamento católico, transformado em progressista no final dos anos 60 e que lhe abriu as portas a uma das mais marcantes gerações do século XX português. Luís Moita, Nuno Teotónio Pereira o padre Felicidade Alves são referências que a acompanham em permanência. E ter participado activamente na vigília contra a guerra colonial, na noite de 31 de Dezembro de 1969, na Igreja de S. Domingos, ou na ocupação da Capela do Rato, em 1973, transformou-a a ela própria também numa espécie de referência geracional.

A experiência profissional de Catalina Pestana tem uma forte componente social, a que não é alheio, afirma quem a conhece, o facto de ter nascido numa família humilde e de ter crescido no seio dos grupos católicos progressistas.

Passados estes anos, Catalina poderá agora suspirar de alívio, apresentar trabalho feito e voltar à família: ao filho, biólogo marinho, aos sobrinhos, que criou desde pequenos, e, sobretudo, para junto dos netos. «Nesta altura, eles já têm sete e oito anos», diz, como se não fosse a tempo de ser avó.

Finalmente livre, sem o peso que representava a liderança da Casa Pia, Catalina Pestana revela que os abusos continuam e que foi instaurado um novo inquérito, pois “continua a haver abusadores dentro da Casa Pia e redes externas que usam os miúdos para abusos sexuais”. Como é possível?

(Baseado na entrevista da “Única” do “Expresso” de 15.02.2003 e da“Tabú” do “Sol” de 05.10.2007)

Posted by N.M. at 09:14:26 | Permalink | No Comments »