A Bíblia de Dostoiévski
Na viagem para a Sibéria, onde o esperavam anos de trabalhos forçados, uma mulher oferece a Dostoiévski uma Bíblia. A leitura e meditação da Sagrada Escritura vêm trazer harmonia ao seu caos interior, até à hora da morte.
Aos quinze anos perdeu a mãe, desgastada por uma vida infeliz e pela tísica galopante. Fica com o seu pai: possessivo, colérico e brutal; barbaramente assassinado pelos seus camponeses, desesperados pelos contínuos vexames. Nasce no coração de Dostoiévski a pergunta determinante: porquê a maldade humana?
Entusiasma-se pelo socialismo utópico. Sonha e acredita firmemente na fraternidade universal, no nascimento de uma sociedade sem classes. Foi preso por participar nas actividades de um grupo revolucionário e é condenado à morte. Perante as armas que lhe estavam apontadas para o matar, pensa:”Daqui a pouco estaremos todos em Cristo”. Ouve, entretanto, o grito do oficial: “Trata-se de uma brincadeira. O Czar na sua benevolência mudou a tua pena para quatro anos de trabalho na Sibéria”. Começa assim uma nova vida para Dostoiévski.
Em contacto com deportados violentos – como nunca acontecera com nenhum outro escritor – inicia a descobrir novas perspectivas, para mergulhar ainda mais nos obscuros meandros da alma humana. Na viagem para a Sibéria uma mulher oferece-lhe uma Bíblia. Lê-a. Experimenta uma forte conversão religiosa :“Penso que não existe nada de mais belo, profundo e perfeito do que Cristo”, “Se me demonstrassem que Cristo está fora da verdade e a verdade fora de Cristo, eu preferiria estar com Cristo mais do que com a verdade”.
Seguiram-se seis anos de trabalhos forçados. Na Sibéria, apaixona-se por Maria, uma mulher difícil, doente de tuberculose; empolgante, mas desequilibrada. Casam-se. Vivem um matrimónio penosamente infeliz. Ele ama-a; mas não se pode dizer o mesmo da parte da esposa.
Começam as crises de epilepsia que o impedem de trabalhar durante dias sucessivos. Para tentar resolver uma desesperada situação económica vicia-se no jogo.
Em poucos meses, morre a sua mulher, Maria; morre um irmão muito próximo e um amigo. No sofrimento encontra a inspiração. Escreve o incrível “Delito e Castigo”, talvez o livro mais belo da história. Para ele, a literatura torna-se profecia: via-se a si próprio como um profeta que ser salvar os seus concidadãos.
“A alma humana é um mistério que deve ser desvelado – dizia Dostoiévski – mesmo que passes toda a vida a procurar resolvê-lo, não penses ter perdido tempo”.
Eis que chega o milagre, que tem nome: Anna Grigorevna. Tinha vinte anos, culta, bela e prática. Começa como por ser sua secretária. Poucos meses depois casam-se. Dostoiévski tinha 46 anos. Anna é a mulher que trará estabilidade e paz à sua vida. É forte, muito sensível, pouco exigente, imensamente afectuosa e totalmente dedicada. Tem consciência que não será fácil viver ao lado de um homem tão complexo, atormentado por uma infinita inquietação interior. Logo na primeira noite do casamento apercebe-se da doença do marido, atingido por um violentíssimo ataque epiléptico. Continua a jogar e a gastar. Ela permanece a seu lado, sabendo que o seu amor poderá curar aquele génio. Compreende ainda que as crises físicas e psíquicas alimentam a sua veia artística. Cura-o do vício do jogo: não condenando-o, mas demonstrando-lhe todo o seu amor incondicionado. Chegando a vender as suas únicas calças de lã que possuía para arranjar-lhe dinheiro para o jogo. E em Baden Baden fazia muito frio. Nascem quatro filhos. Dostoiévski escreve os principais romances e Anna torna-se também administradora dos seus bens. Nesta obras, património da humanidade, o escritor condena a soberba luciferiana do homem nihilista que recusa a fé em Deus e pensa poder conferir a si próprio um sentido para a realidade.
Foram os anos em que mensalmente publica uma página do seu diário (Diário de um Escritor).
Procura com afã a verdade, nunca se deixando cair numa visão conformista. Morrem dois filhos e Dostoiévski entra em profunda crise. Frequenta o mosteiro Optina Pustyn, onde reencontra a serenidade.
Aproxima-se a morte. Chama a sua mulher e diz-lhe: “Vou morrer hoje”. Pede-lhe que vá buscar a sua Bíblia, aquela que guarda religiosamente desde a viagem para a Sibéria. Ela abre-a ao acaso. Lê a parábola do Filho Pródigo. Como ele, Dostoiévski regressa à Casa do Pai.
Baseado em Michele Genesio, in Città Nuova 19 (2007)











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Simplesmente venero.a !