Abbé Pierre

Gigante da Misericórdia
Abbé Pierre faleceu aos 94 anos, no dia 22 de Janeiro, em Paris. Verdadeiro “apóstolo dos pobres”, figura singular da Igreja, fundou a Comunidade de Emaús.
Heni Grouès, o “Abbé Pierre”, era o quinto filho de uma família de cinco rapazes. Nasceu no dia 5 de Agosto de 1912, em Lyon, França. Quando tinha 15 anos, durante um congresso de jovens cristãos em Assis, sentiu “a emoção indescritível” da revelação. Em 1938, entrou no convento dos Capuchinhos, onde passou a chamar-se "Padre Filipe".
Trabalhou na catedral de Grenoble e na Alsácia, antes de se empenhar na Resistência durante a II Guerra Mundial – período em que ajudou muitas pessoas a fugir para a Suíça e sendo conhecido, na resistência, como "Abbé Pierre". Foi preso, mas conseguiu fugir escondido num saco do correio, num avião para a Argélia.
Em Novembro de 1949, fundou a associação Emaús, uma comunidade que se consagra à construção de casas para os “sem-abrigo”. O Movimento começou quando Abbé Pierre acolhe em sua casa o assassino George, que já se tinha tentado suicidar e lhe lança o desafio: "Não tenho nada para te oferecer. Queres ajudar-me na construção de casas para pessoas sem-abrigo? ”.
As Comunidades de Emaús são compostas por pobres que, através do trabalho de recuperação e venda daquilo que é lançado fora, adquirem o seu próprio sustento e ajudam quem se encontra em condições piores. Aproveitam e dedicam-se a reciclar o lixo dos ricos. É uma solidariedade de pobres com os pobres.
O Movimento de Emaús abarca hoje 84 comunidades em que vivem e trabalham mais de quatro mil pessoas, em trinta países dos cinco continentes. Em 1983, foram fundadas duas comunidades em Portugal, uma em Lisboa, outra no Porto. Abbé Pierre esteve em Portugal em 1995 e em 2005. Escreveram os jornais na altura: “Que faz correr este homem de barba branca e batina preta? Certamente que é a convicção evangélica de que a terra é para as pessoas e, se houver justiça, ela chega para todos. Não faz sentido haver casas sem gente e gente sem casa, terras sem gente e gente sem terra”.
Para a história fica o apelo do Abbé Pierre, no Inverno de 1954, a uma “insurreição da bondade”. Ao longo da sua vida, foi uma voz dos que não tinham voz e nunca cansou de criticar as condições precárias de habitação de milhões de pessoas e a “praga da indiferença”.
O Cardeal Godfried Danneels, Arcebispo de Bruxelas, escreveu numa mensagem a respeito da morte do Abbé Pierre, que estamos na presença de um “gigante da misericórdia”, acrescentando que “para lá das particularidades religiosas ou filosóficas, ele lembrava a cada um de nós o nosso dever de humanidade”.
Uma multidão de companheiros da Comunidade de Emaús, as mais altas autoridades do Estado francês, personagens do mundo do espectáculo e milhares de pessoas comuns participaram, na manhã de 26 de Janeiro, nas exéquias do Abbé Pierre, na Catedral de Notre Dame, em Paris. A celebração foi presidida pelo arcebispo de Paris, André Vingt-Trois, que afirmou na homilia: "Seguindo o exemplo de São Francisco, Abbé Pierre fez-se pobre no meio dos pobres, para os ajudar a encontrar, em si mesmos, razões de esperança e meios para sair da pobreza. Soube mobilizar largamente a generosidade e suscitar compromissos concretos. É uma das grandes figuras da caridade do século XX".











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