2007/03/08

Muhammad Yunus

O Banqueiro dos Pobres

Muhammad Yunus é o Nobel da Paz de 2006. Através de um banco original, que fundou e de que é presidente, pretende acabar com a pobreza, oferecendo microcrédito a milhões de famílias.

Muhammad Yunus nasceu em 1940, no Bangladesh, e é o terceiro de 13 filhos. Licenciou-se em Economia no seu país e fez o doutoramento nos EUA, com uma bolsa de estudo. Em 1972, regressou à sua cidade natal para dirigir o departamento de Economia da universidade local. No início da década de 1970, o Bangladesh, que se tornara independente do Paquistão, vivia uma situação que piorava de dia para dia.

Em 1974, a terrível fome que matou cerca de 1,5 milhões de pessoas mudou para sempre a vida deste economista. “Enquanto as pessoas morriam de fome nas ruas, eu ensinava elegantes teorias económicas. Comecei a odiar-me pela arrogância de fingir que tinha respostas. Nós, os professores universitários, éramos tão inteligentes, mas não sabíamos absolutamente nada acerca da pobreza que nos cercava. Por que é que pessoas que trabalhavam 12 horas por dia, sete dias por semana, não tinham comida suficiente? Decidi que os pobres deveriam ser os meus professores. Comecei a estudar e a questioná-los sobre as suas vidas”.

A aventura de Yunus começa em 1976, quando empresta 27 dólares a 42 tecedeiras de uma vila perto de sua cidade natal. Surpreendentemente, Yunus recebeu, com pontualidade, o capital e os juros de todos os empréstimos que fizera.

Fundou, mais tarde, o Grameen Bank. A ideia de Yunus era simples: criar um banco que em vez de fazer empréstimos a pessoas individuais, concedesse crédito a grupos; que desse prioridade às mulheres; em vez de emprestar a quem tem dinheiro o fizesse aos pobres; em vez de pedir primeiro garantias, confiava que as pessoas criassem as garantias depois. E para isto como recorda no seu livro “O Banqueiro do Povo”, “reparou no que faziam os bancos e fez exactamente o contrário”.

É significativa a entrega do Prémio Nobel a Yunus, porque a sua obra mostra que quando se enfrentam situações de miséria e indigência, um empréstimo, ou seja, um contrato, é mais eficaz e fraterno do que um donativo, pois o microcrédito activa a resposta e o empenho de quem recebe e desencadeia a reciprocidade. Além disso, a experiência de Grameen Bank mostra que da pobreza extrema se pode sair e se é capaz de ver nesta situação não somente uma maldição, mas também possibilidades: Yunus soube ver nos pobres uma potencialidade e a partir de uma visão nova partiu a sua revolução social.

O método Grameen (em bengali, significa ‘rural’ ou ‘aldeia’) é a versão moderna dos Montepios franciscanos, criados a partir do génio de S.Bernardino de Sena e Santo António de Lisboa, na Idade Média. ‘Bancos rurais’ ou ‘populares’ que o catalão S. António Maria Claret criou em Cuba e das caixas económicas e fundos de empréstimo, que, do Japão à Índia, do Brasil ao interior de Portugal, durante séculos as Misericórdias praticaram ao lado dos celeiros comuns e de outras práticas de crédito e empréstimo dimensionado à defesa dos pobres e ao combate à usura. Os franciscanos inventaram estas instituições para “curar a pobreza” pois, enquanto houvesse um pobre na cidade, diziam que toda a cidade estava doente.

O “Banco dos Pobres” representa literalmente um farol para os náufragos do sistema capitalista, para os que não conseguem empréstimos em quaisquer outros bancos, pois não dispõem de garantias suficientes para cobrirem eventuais perdas. Em Portugal, para além da Associação Nacional de Direito ao Crédito, da Planet Finance e de outras instituições promotoras do microcrédito, também Misericórdias, IPSS, Montepios e outras instituições de economia social e solidária têm em curso projectos de crédito especificamente virados para prevenção e combate à pobreza. Aliás, tais projectos e iniciativas saíram fortemente estimulados pela recente participação de Muhammad Yunus num colóquio em Lisboa.

Muhammad Yunus demonstrou com factos que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. Tem um sonho difícil de concretizar, mas do qual não abdica: erradicar a pobreza do planeta. Teve a ousadia de afirmar ao receber o Prémio Nobel: “Um dia os nossos netos terão de ir a museus para ver o que era a pobreza”.

Escrito por N.M. em 22:49:14 | Link permanente | Comments (1) |