2007/05/07

Padre Silvano Cola

 

Homem do Diálogo

Dedicou toda a sua vida aos sacerdotes, mas sempre num horizonte de alcance universal. Uma personalidade multifacetada, marcada pelo carisma da unidade e pela aventura iniciada por Chiara Lubich.

O Pe. Silvano nasceu em Camerino (Macerata-Itália), em 22 de Janeiro de 1928 e foi ordenado sacerdote em Turim, em 1950. Faleceu no passado dia 17 de Fevereiro, no Centro Sacerdotal, em Grottaferrata (Roma), onde vivia com outros sacerdotes.

Foi um dos primeiros sacerdotes que, em contacto com o Movimento dos Focolares, encontraram um novo impulso para o ministério sacerdotal. Impressionava o modo vivo como contava a sua história: “Era sacerdote desde 1950, quando em 1954, conheci o Ideal da unidade ao encontrar em Turim uma das primeiras focolarinas, Angelella Ronchetti. Em meia hora aquela jovem mulher tinha conseguido abalar todas as minhas certezas clericais. Não consegui dormir durante três noites seguidas, e depois, decidi-me conhecer bem o que era esta ‘vida nova’. Entrei na casa onde morava Angellela e encontrei outra das primeiras companheiras de Chiara Lubich, Doriana Zamboni. Foi uma hora de luz tão imensa que me fez, verdadeiramente, renascer. Naturalmente, desde então, em todos os momentos em que estava livre do meu trabalho, dirigia-me àquele focolar”.

Trabalhava, então, na Casa dos Rapazes, em Turim, com jovens abandonados ou delinquentes. Atravessava uma profunda crise. “Durante quatro anos – contava – parecia-me que depois de ter sido ordenado sacerdote, tinha chegado ao auge. Depois, começaram as dúvidas, porque via que a teologia estudada no seminário servia bem pouco para o meu ministério. Entrei em crise a tal ponto que, por uma questão de honestidade, tinha decidido abandonar o sacerdócio”.

Em contacto com o Movimento dos Focolares, tomou consciência da realidade de “Jesus no meio”, que se experimenta quando o amor se torna recíproco e circula entre duas ou três pessoas, que vivem o amor com a medida sem medida de Jesus Cristo.

Uma das experiências fundamentais foi a participação no encontro de Verão dos Focolares, a Mariápolis de 1955, nas montanhas Dolomitas. Dizia: “Ali, formava-se um povo multifacetado que, reunido com o único objectivo de amar, fazia experimentar a Igreja como ‘ícone da Trindade’”.

A partir de 1963, com a autorização do bispo da sua diocese de Turim, transferiu-se para o Centro do Movimento, nos arredores de Roma, para estar ao serviço de todos os sacerdotes diocesanos do mundo que se inspiram na espiritualidade da unidade. Foram anos de grande desenvolvimento do Movimento, incluindo o ramo sacerdotal, que o Pe. Silvano seguiu com um cuidado e uma fidelidade impressionantes, com cartas, viagens e encontros.

Em 1966, com Chiara Lubich fundou em Grottaferrata (depois, haveria de transferir-se para Frascatti e, mais tarde para Loppiano) a chamada “Escola Sacerdotal”. Esta haveria de proporcionar a milhares de sacerdotes e seminaristas diocesanos a possibilidade de fazerem uma experiência aprofundada de “vida de unidade”, ajudando-os, assim, a realizar, com os seus bispos e colegas presbíteros e nas comunidades paroquiais a eles confiadas, a Igreja-comunhão do Concílio Vaticano II.

Ainda em 1966, também com a colaboração do Pe. Silvano, Chiara faz surgir o “Movimento Paroquial”, cujos primeiros passos foram acompanhados pelo Pe. Silvano: muitos grupos paroquiais em todo o mundo seriam, assim, revitalizados, com o sabor das primeiras comunidades.

Depois em 1968 – num momento de grande crise dos seminários – Chiara confiou ao Pe. Silvano o seu desejo de ajudar a Igreja, passando a ficar a seu cargo também os jovens seminaristas. Nasceu, assim, o Movimento Gens (acrónimo de “geração nova sacerdotal”).

Entre as maiores alegrias da sua vida, conta-se a Jornada de 30 de Abril de 1982, que reuniu, na Aula Paulo VI, no Vaticano, sete mil sacerdotes, religiosos e seminaristas aderentes ao espírito dos Focolares. João Paulo II proferiu, então, um discurso memorável, em que falou de Jesus Crucificado e Abandonado e da Unidade como “grandes componentes da mensagem evangélica”. Chiara Lubich falou do sacerdote como “homem do diálogo” e indicou Jesus Abandonado como modelo. O Pe. Silvano, na sua intervenção afirmou:” Compreendi o que é o sacerdócio, porque foi precisamente com o abandono e a morte na cruz que Jesus gerou a Igreja, assumindo em si o pecado e a dor universal. E disso a mim mesmo: minha é, portanto, a laceração entre as Igrejas cristãs, minha a desorientação doutrinal, minha a incomunicabilidade entre o sacerdote e o bispo, entre sacerdote e sacerdote, entre o sacerdote e o leigo, minha a incompreensão do celibato, minha a tentação racionalista, minha a mentira existencial entre o que é pregado (nas homilias) e o que é vivido, minha a solidão dos sacerdotes”. E acrescentou: “Mas toda esta dor é Jesus, a sua dor, é precisamente aquela dor sacerdotal que, se for aceite e amada, gera a Igreja”.

Homem de diálogo, portanto. Nos anos que se seguiram ao encontro histórico dos Movimentos Eclesiais com João Paulo II, na Praça de S.Pedro, durante o Pentecostes de 1998, foi-lhe atribuído também o encargo de trabalhar pela comunhão entre esses Movimentos. Também aqui desenvolveu uma actividade infatigável, com muitos contactos, fecundos e fraternos.

O Pe. Silvano apostou toda a sua vida na radicalidade e na sinceridade do amor, respeitando os outros e dado tempo (como faz a paciência de Deus) à maturação das pessoas. Chiara ao comunicar a notícia da sua morte escreveu: ”Todos sabeis como ele deu início e seguiu os nossos sacerdotes e todo o mundo sacerdotal com uma generosidade incansável. Tendo-os amado, amou-os a até o fim”.

Escrito por N.M. em 17:59:08 | Link permanente | Comments (0) |