Isabel Jonet
Mobiliza boas vontades e junta alimentos, coisas, talentos… para distribuir a quem precisa. Não receia afirmar que o que a motiva é a vivência da caridade, palavra desvirtuada, mas que significa “solidariedade com amor, com entrega de si mesmo”.
Isabel Jonet nasceu, em Lisboa, a 16 de Fevereiro de 1960, é casada e tem cinco filhos. Licenciou-se em Economia em 1982, na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Desde 1993, trabalha em regime de voluntariado, sendo actualmente Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome.
Sobre as motivações que a fazem permanecer à frente do Banco Alimentar, afirma: ”Foi uma opção de vida. Sinto-me realizada, quer do ponto de vista profissional quer do ponto de vista pessoal. Atrás de um computador transformamos rapidamente pessoas em números. Eu faço questão de ir aos bairros para não perder essa proximidade com as pessoas. É isso que me mantém aqui. Eu vejo como as pessoas vivem mal e sinto que através do meu trabalho no Banco Alimentar Contra a Fome essas pessoas podem viver um pouco melhor”.
Os Bancos Alimentares não existem só para dar de comer a quem tem fome, mas também para lutar contra o desperdício e a indiferença.Oitenta e nove por cento do que o BA distribuiu seria destruído. “Os 11 bancos – explica Isabel Jonet - seleccionam no terreno instituições de solidariedade social (IPSS). Vamos buscar onde sobra para entregar onde falta”.
Para Isabel Jonet é também muito gratificante o envolvimento voluntário de tantas pessoas:”Há pessoas de todas as idades, de todas as classes sociais, de todas as cores, de todos os credos, de muitas nacionalidades a trabalharem lado a lado por uma causa comum. De seis em seis meses cá estão sem a gente as convocar. Trabalho aqui todos os dias. Quase todos os dias me comovo. A relação com estas pessoas e com as instituições é o nosso bem mais precioso. Há uma relação de confiança que leva instituições a virem ter connosco na hora das aflições. Sabem que têm em nós um amigo que dá resposta aos problemas e não cobra nada”.
O Banco Alimentar descobriu que há outras formas de ajudar, ao constatar as dificuldades em gerir as Instituições de Solidariedade Social, pois não basta a boa vontade e a carolice: “A Entreajuda propõe fazer o mesmo que os Bancos Alimentares Contra a Fome fazem com os produtos alimentares, mas com serviços que vão contribuir de uma forma estruturante para as instituições libertarem recursos que podem afectar a outros sectores de interesse para a comunidade. Tem sido um projecto fascinante. Eu tinha medo que as instituições não acolhessem bem esta ideia até por receio de perderem algum poder. Foi bem acolhida pelas instituições e pelas empresas parceiras.
Gestores, juristas, economistas, informáticos, contabilistas… de diversas empresas ajudam gratuitamente na gestão qualificada das IPSS que solicitam essa ajuda É uma intervenção pontual fazendo com que as instituições tenham uma gestão organizada e sustentada no tempo. ”Para cada instituição - esclarece Isabel Jonet - há um tutor, um voluntário, um gestor muito qualificado, que vai à instituição e faz o diagnóstico. São pessoas disponibilizadas por empresas, ao abrigo do programa voluntariado-empresa, e que a Entreajuda coloca nas IPSS. Sempre em consonância com as direcções e sempre tendo em vista a missão e vocação das IPSS, o tutor propõe com a Entreajuda um plano de acção e recuperação daquela instituição. O grande desafio é conseguir que as instituições, mutualidades, misericórdias, grupos cáritas, conferências vicentinas… que há pelo país fora funcionem de forma correcta em termos de gestão e organização. Dessa maneira as pessoas que lideram essas organizações vão libertar recursos e tempo para dedicar às pessoas que apoiam. As instituições devem apoiar poucas famílias mas de uma maneira integral. Podem ter um papel fundamental em traçar um projecto de vida, ajudando cada família a quebrar ciclos de pobreza, fazer um trabalho de grande proximidade, promovendo uma verdadeira mudança de vida. Ao dar verbas cegas o Estado está a perpetuar a pobreza e muitas vezes a criar dependências”.
Foi criado há poucos meses o Banco de Bens Doados, que permite levar aos mais pobres coisas que as empresas ou as famílias não precisam e não conseguem vender: computadores, mobiliário, roupa de cama ou de banho que os hotéis renovaram, etc.
Sem qualquer conotação política ou religiosa, os Bancos Alimentares garantem comida a 219 mil pessoas em todo o país. Um trabalho colossal que nunca está acabado, sobretudo em anos como este de picos de desemprego, aumento das taxas de juro e do endividamento das famílias.