Monday, August 4, 2008

D.Basílio do Nascimento

 

O Bispo de Baucau, Timor, esteve recentemente em Évora. D. Basílio do Nascimento veio “matar saudades” da cidade, da Diocese e dos amigos que o acompanharam na sua formação sacerdotal. Recorde-se que estudou e foi ordenado padre diocesano, em Évora, em 1977, onde permaneceu até 1994, ano em que foi transferido para Timor.

 

Apesar da independência alcançada, Timor é ainda é uma nação muito jovem e com grandes desafios pela frente. Em Fevereiro passado sofreu uma tentativa de “golpe de Estado”.  D.Basílio do Nascimento comenta: “Por mais estranho que pareça, penso que o “golpe de Estado” criou uma certa consciencialização para que as pessoas não se deixem levar por falsas promessas. Penso que o facto do atentado ser contra as duas mais importantes figuras do Estado, o Presidente e o Primeiro-Ministro, criou também uma consciência no povo, em geral, de que há qualquer coisa de ameaçador”.

Sobre se os timorenses estão ou não a viver melhor ou pior do que há 5 anos, D.Basílio não tem dúvidas: “Do ponto de vista da segurança e da estabilidade, julgo que estão melhores. Do ponto de vista económico, sendo que esta crise mundial também nos atinge, estamos pior. A crise alimentar que assola o mundo também se faz sentir em Timor. Por exemplo, um saco de arroz de 50kg que há 3 meses custava 13 dólares, hoje custa 40 dólares”.

Timor é produtor de petróleo. Mas não se vislumbram benefícios: “Por mais paradoxal que pareça, quando falamos com os membros do Governo, eles dizem sempre que dinheiro não é problema. Somente para se ter uma ideia, dizem os Governantes, que actualmente os benefícios do petróleo rondam os 240 milhões de dólares por mês. Simplesmente olhando para a realidade de Timor, necessariamente, nos interrogamos: onde está aplicado esse dinheiro?

Comparando com o que se passava em Timor há 5 anos, D. Basílio afirma que Díli está diferente para melhor. Muitas casas já foram recuperadas. As ruas estão mais limpas. A urbanização em Díli ainda continua a ser um caos, mas esperamos que os técnicos possam contribuir para o embelezamento da cidade. Por outro lado, o parque automóvel, que sabemos que a maioria é dos funcionários da ONU, contradiz o rótulo de pobre que temos. A nível de segurança não se registam problemas. Na saúde há melhorias. Infelizmente, em termos de estradas não tiveram grandes melhorias, mantendo-se ainda as que foram deixadas pelos indonésios, como acontece com as pontes, que só agora estão a ser finalizadas.

Sobre a agricultura, acrescenta que o actual ministro da tutela está a dar um grande dinamismo ao sector, porque compreendeu que a agricultura nesta fase deve ser a força motriz de Timor. Há grandes investimentos neste sector. Por exemplo, dizem as fontes oficiais que Timor necessita 90 mil toneladas de arroz, sendo que só produzimos 30 mil. Por um lado, esta situação obriga-nos a apertar o cinto. Por outro lado, deve ser uma motivação para tirar melhor partido das terras que temos. Infelizmente não há melhorias na pesca. Existe a pesca artesanal. Neste momento há contratos com a Tailândia que vêm pescar nas nossas águas. Contudo,  D.Basílio realça sobretudo o clima de segurança e de paz que se respira em Timor.

Sobre a acção da Igreja em Timor, o Bispo de Baucau diz que continua a ser aceite e respeitada: “Num dado momento, pensei que os ânimos esmorecessem um bocado, e é verdade que depois da independência houve uma diminuição da prática religiosa, mas hoje em dia vê-se de novo aquele esplendor em termos de prática e de afectividade. Há vários fenómenos que é necessário interpretar, mas convenço-me que há elementos de identidade timorense dos quais não podemos fugir à realidade: o catolicismo entra hoje como um elemento de identidade timorense”.

As duas dioceses existentes fazem cobertura de toda a ilha. Contam com sacerdotes, catequistas e animadores de comunidades. “Não tenho dúvidas  - afirma D.Basílio - de que a força da Igreja Timorense residiu e reside nos Leigos. Hoje em dia, apesar da limitação de formação, cada vez mais se vê que os leigos, aqueles que têm papel a exercer dentro da Igreja, fazem-no com maior convicção e, direi mesmo, militantismo. Dão a entender que de facto a Igreja também é deles. Na minha diocese tenho: 42 sacerdotes entre diocesanos e religiosos; 242 catequistas remunerados; 1700 catequistas não remunerados. Digamos que estes são as bases que estão em quase todos os lugares, animando as comunidades, mesmo nos lugares mais recônditos. Em suma, os leigos, sempre o fizeram, e actualmente, estão a fazer um belíssimo trabalho”.

Em relação a uma possível terceira diocese D.Basílio informa que o Vaticano aguarda a definição por parte do governo da divisão administrativa do território. Uma futura abrangerá certamente a zona de Mariana. Mesmo se as duas actuais já trabalham em conjunto, só uma outra diocese permitirá a criação de uma conferência episcopal.

 A diocese continua a dirigir estruturas implementadas, como a tipografia, o turismo, a formação: “Estas estruturas – explica D.Basílio -  surgiram, tentando dar resposta a uma frase de um nosso antigo reitor do Seminário, um sacerdote jesuíta que dizia, na altura, ‘metam na vossa consciência que nunca poderão pregar o Evangelho a estômagos vazios’. Foi com esta ideia que cresci, e sempre pensei, que se tivesse uma responsabilidade na Igreja, deveria fazer algo ao nível material. Tentou-se criar uma série de estruturas que visam a formação das pessoas e dar o pão diário a algumas famílias. Tudo começou às apalpadelas, pois a ideia era bonita, mas não sabíamos bem aonde íamos. Mas fomos tendo apoio do Governo Português, de entidades, de amigos e, hoje, os objectivos já estão mais definidos.

Felizmente podemos dizer que o pão não falta, o que é motivo de contentamento, mas como deve imaginar dirigir tudo isso dá muitas dores de cabeça. O certo é que as coisas se vão bastando a si próprias. Não há dívidas, mas também não há ainda lucros. Pensamos que é um investimento que dará os seus frutos”.

A par do desenvolvimento económico e social, há também o desenvolvimento espiritual. Sobre as vocações o Bispo de Baucau refere: “Felizmente há vocações e não só em Baucau. Penso que é uma das grandes riquezas da Igreja Timorense, o crescimento das vocações para a vida consagrada. Hoje em dia, Timor-Leste é um país onde as vocações florescem. Para dar um número, o Seminário Menor está lotado, com 120 seminaristas, sendo que no ano passado tivemos que recusar cerca de 230 candidatos. O Seminário Maior, em Díli, tem 83 seminaristas. Ainda há um Seminário intermédio, que neste momento, tem 43 seminaristas. Trata-se de um Seminário Propedêutico, onde se ensinam línguas, algumas introduções e espiritualidade. Para este Seminário vão também aqueles que não fizeram o Seminário menor. Neste momento, os três Seminários tem mais de 230 seminaristas”.

 

Posted by N.M. at 10:04:29
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