Andrea Riccardi
Na linha da frente contra a pena de morte
Criada em Roma, em 1968, pelo historiador Andrea Riccardi, e dedicada essencialmente ao trabalho com os mais pobres, a Comunidade de Santo Egídio tornou-se mais conhecida depois da mediação do conflito moçambicano, que levou à celebração do acordo de paz, em 1992. Está ainda na memória de todos o dia 4 de Outubro de 1992, um domingo. Dia de festa, dia de ressurreição. Moçambique ressurgia. Naquela manhã foi assinado o acordo geral de paz, após longas e complexas negociações durante mais de dois anos no Centro da comunidade de Santo Egídio, em Roma.
Hoje, grupos ligados à Comunidade estão presentes em 60 países, num total de 50 mil pessoas, e nas últimas décadas o compromisso da Comunidade de Santo Egídio na luta contra a pena de morte é um dos seus empenhos mais evidentes, a nível internacional. O objectivo, considerado utópico por muitos, é conseguir a abolição universal da pena capital e a suspensão imediata de todas as execuções dos condenados à morte, em todo o mundo.
Em Novembro de 2006, a aprovação da Resolução por uma Moratória Universal da Pena Capital, na Terceira Comissão da Assembleia-geral das Nações Unidas, marcou uma etapa decisiva para acelerar um processo bem sucedido. Com efeito, desde os anos 90, mais de 50 países renunciarem ao uso da pena de morte e a restrição do seu uso em muitos países, devido a um maior respeito pela vida humana e pelas crescentes dúvidas sobre a sua eficácia e correcção na aplicação, inclusivamente em sistemas judiciários mais evoluídos.
Para este resultado contribuíram, em larga medida, as cinco milhões de assinaturas recolhidas em 153 países pela Comunidade e a criação de uma frente mundial inter-religiosa e intercultural mundial.
A Jornada Internacional Contra a Pena de Morte foi lançada em 2002 pela Comunidade de Santo Egídio e, desde então, não parou de crescer. “Cidades pela vida - Cidades contra a pena de morte” foi, em 2007, a maior manifestação pública realizada até hoje para pedir o fim da pena capital em todos os países do mundo: 700 cidades de 51 países.
Os avanços na abolição da pena de morte, a paz em Moçambique e o êxito de tantas outras acções da Comunidade de Santo Egídio não se deveram só à intervenção de “poderes fortes”, ao uso de grandes meios financeiros e a promessas em dólares sonantes. Foram igualmente decisivos a decifração clara por parte dos intervenientes dos complexos termos das questões, no plano político e no plano humano.
Compreendemos melhor o carisma e a acção da Comunidade de Santo Egídio se prestarmos também atenção ao seu fundador. Como historiador, Andrea Riccardi fez, por exemplo, um levantamento do que foram as perseguições e martírios dos cristãos durante o século XX. O resultado é um fresco impressionante. O autor de “O Século do Martírio” diz que, seguramente, se podem calcular três milhões de mortos só pelo facto de professarem uma fé.
Certamente que o conhecimento aprofundado de tanto heroísmo, faz olhar para a história de outra maneira. “O martírio cristão – adverte o autor – não reclama vingança, os mártires morrem perdoando. É um martírio não violento, não é um martírio de ódio. Isto é muito importante. Também a Igreja deve entender a mensagem dos mártires, que não foi ainda compreendida. É a mensagem do testemunho de uma força débil. O cristianismo é uma força débil. Há muito a descobrir, de novo no cristianismo. Cito a frase do padre Men, de origem hebraica, russo, ortodoxo, morto em 1990, talvez uma das últimas vítimas do KGB. Ele diz que o cristianismo é qualquer coisa mais que uma forma cristalizada, é um tesouro a descobrir”.
A força que empurrou todos para a construção da paz foi uma força “débil”, fruto de não ter outro interesse a não ser o da paz. Para os crentes esta força vem do imperativo de não ter inimigos; do sonho que as espadas se podem transformar em foices, desarmando as mãos e os corações dos homens, ensinando o valor insubstituível que representa a vida de cada um. É a mesma força que leva a Comunidade Santo Egídio à mobilização para abolir a pena de morte, considerada «imoral e inútil», e sempre uma “grande derrota da cultura da vida».
Actualmente, há 125 países abolicionistas no mundo; outros 57 mantêm ainda a pena capital e 44 são abolicionistas de facto, ainda que mantenham a pena no sistema jurídico.
A Comunidade de Santo Egídio nasceu em 1968, após o Concílio Vaticano II. Nutre-se de um humanismo radicado no Evangelho, de um Evangelho levado a sério, feito coração da existência, esperança mobilizadora de energias de generosidade e de solidariedade. Este humanismo cristão tem o seu encontro constante, então como hoje, na solidariedade com aqueles que parecem ser condenados a ser os miseráveis da terra, nas grandes cidades opulentas do Norte como nas cidades e nos países do Sul. Deste humanismo, alimentado de fé e animado de esperança, nasce ainda hoje uma cultura de solidariedade. Deste humanismo nasce uma vida, uma filosofia, muitas iniciativas, vividas como diálogo com outros humanismos, com muitos mundos religiosos, com diversas culturas.
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