Monday, November 10, 2008

D. António Couto, Bispo com alma de poeta

Nascido a 18 de Abril de 1952, em Vila Boa do Bispo, concelho de Marco de Canaveses, D. António Couto era, até ser nomeado bispo auxiliar de Braga, Superior Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova. Passou por Angola e é membro da Congregação para a Evangelização dos Povos, do Vaticano. O seu percurso é marcado pela relação muito próxima com a Bíblia: no Colégio Urbaniano, de Roma, obteve a licenciatura em Sagrada Escritura, em 1986. Em 1989, depois de uma permanência de cerca de um ano em Jerusalém, no Instituto Franciscano de Emaús, obteve o doutoramento em Teologia Bíblica, por isso afirma: “A minha vocação é muito ligada à Palavra de Deus e penso que irei continuar por aí: levar a Palavra ao Povo de Deus”. E acrescenta: “Sempre gostei muito das escrituras. Cedo entrei nelas e comecei a perceber melhor como se moviam as personagens, como Deus lidava com elas e comigo, e desse ‘vício’ nunca mais me vi livre. Em todas as horas eu sei, sinto e afirmo, sem problemas, que não estou só e que Deus está comigo”.
O seu lema episcopal é «Vejo um ramo de amendoeira» (Jr 1,11) e na sua ordenação episcopal afirmou que enquanto bispo queria mostrar sinais positivos: “Esse texto, numa época trágica de sangue, de guerra, de miséria no meio de uma cidade destroçada é um grito de uma imensa esperança de Jeremias. A amendoeira é, na Palestina tal como aqui, uma das poucas árvores que cresce em pleno Inverno. É uma imagem muito forte. E essa visão forte impressionou-me desde muito cedo. O ramo de amendoeira é o marcador do livro de Jeremias, que tem os olhos cravados na esperança e por isso, o resto passa à margem. Ele não se prende com os buracos, vai ao essencial”.
O que sempre o fascinou nas missões foi o encontro com o diferente, com o diferente mais diferente: “Gosto de ver o mundo a que não estou habituado. Como sou capaz de entrar numa biblioteca, fechar a porta e estar lá dois ou três meses se me derem alguma coisa por baixo da porta para comer, porque quero vasculhar tudo e é um deslumbramento para mim, sinto o mesmo ao entrar num mundo desconhecido e passar meses e anos a ver. No meio das pessoas, criam-se relações, passam imagens, passa Deus. E aprende-se muito mais do que se ensina. Vamos para lá com ideias sobre o que falar, mas depois não consigo dizer nada porque o mundo deles antecipa-se ao meu e eu é que sou levado a ouvir o que têm para me dizer”.
Afirma que gosta de ser estimulado para aprender: “Aprendemos quando falamos e quando ouvimos os alunos. Sou deslumbrado e gosto de deslumbrar os outros. Mas não é de propósito. Isso está em mim e sai de mim. Sou incapaz de deixar passar o dia sem ler pelo menos umas duas ou três horas. Muitas vezes pego num livro que me interessa e não largo enquanto não terminar. E também escrevo bastante. A investigação e a escrita são investimentos meus. A minha vida está sempre ocupada, mesmo que não haja nada programado para fazer, eu tenho sempre muita coisa para fazer”.
Para D. António Couto, hoje, a verdadeira paróquia é aquela onde o cristão se reúne para reflectir e celebrar a sua fé, mas «parte para fora e vai ao encontro das pessoas nos cafés, nas casas, nas escolas, nas oficinas”. E acrescenta «hoje, o papel do cristão, passa-se mais fora da igreja, do que dentro da igreja.»  Não é possível, de modo algum, continuar com a actual «metodologia de manutenção, apenas acolhendo aqueles que vêm à igreja», pois desta forma, «não fazemos sentir a todos o calor da nossa vivência de Cristo e do Evangelho». Interroga-se: «Se for só um padre na sua paróquia a anunciar o evangelho, aonde é que chega o Evangelho?» E logo responde: «Quem mais depressa e fundo consegue chegar ao coração das pessoas – nas escolas, nas fábricas – não são os padres mas os leigos!»
Por muitos chamado o “bispo da esperança”, D. António Couto constata com alguma tristeza que permanentemente «nos queixamos de que o mundo não tem valores. Estamos a falar mal do mundo; isto é, mal dos outros». E logo acrescenta que «este nosso discurso está errado. Apenas temos de mostrar os valores que temos. Apenas temos de amar. Temos de amar. E amar este mundo. Estas pessoas». Para ele, este tempo em que estamos «é o de um cristianismo personalizado, pessoa a pessoa, de coração a coração». Hoje, continua, «o que é decisivo é que cada um de nós se abeire do outro, o trate pelo seu nome, como uma pessoa, e acabe por lhe fazer passar este Jesus Cristo, pelo seu comportamento».
A metodologia da missão afigura-se clara ao bispo-biblista: «cada um sair de si e  tentar transformar cada cristão num evangelizador, porque isso é que é um verdadeiro cristão». E acrescenta: «Dizemos que somos irmãos mas, na verdade, não somos irmãos; somos mais malandros que irmãos»; mas «quando alguém vai ao encontro das pessoas por amor acontecem pequenos milagres».
Vale bem a pena visitar mesadepalavras.blogspot.com e deixarmo-nos deslumbrar pelos textos que D.António Couto partilha connosco.

N.M.

Posted by N.M. at 20:20:01
Comments

Leave a Reply