António Alçada Baptista
Memorialista, cronista, romancista, católico humanista, homem de cultura e acção. Na sua primeira obra, deixou escrito: “O que peço a Deus é que me conceda viver a procurá-lo na serenidade. Saber aceitar os meus e os nossos limites que nossos filhos e netos e netos dos nossos netos irão sucessivamente quebrando”.
António Alfredo Alçada Baptista nasceu na Covilhã, a 29 de Janeiro de 1927, onde passou a infância, de que fala abundantemente na sua obra. “Penso é que muitos da minha geração foram educados como eu: com o triste temor de Deus e óleo fígado de bacalhau”, escreve em “Reflexões sobre Deus”.
Estudou no Colégio dos Jesuítas de Santo Tirso, muito frequentado pelas famílias tradicionais. Nunca esqueceu a influência marcante do seu professor e amigo, o padre António Magalhães. “Foi quem primeiro - confessa o escritor - me aceitou e me animou a olhar interrogativamente para o homem e para o mundo … foi o meu primeiro professor de liberdade”.
Após o Liceu, desejava frequentar Letras, mas o pai insistiu no Direito. Concluiu o curso, tendo exercido pouco tempo a advocacia. Casou, entretanto, com Maria José (Zezinha) Nobre Guedes, de quem teria sete filhos.
Inicia muito cedo a actividade como militante católico, humanista, influenciado sobretudo pelo humanismo de Emmanuel Mounier, por Thillard Chardin, Pierre Emmanuel, Edgar Morin, etc. “A razão por que não deixei a Fé - escreve mais tarde - não foi somente o temor. Tudo o que me propunham em troca era também curtinho e desajeitado. Os livre-pensadores do meu tempo ou não eram livres ou não eram pensadores”.
Depois de ter apoiado a candidatura presidencial de Humberto Delgado, no final dos anos 50 compra e passa a dirigir a Livraria Moraes, que, como editora, terá uma acção importante no lançamento de diversos pensadores católicos ou de inspiração cristã, quer como colecções de poesia (Sophia, Jorge Sena e tantos outros). “Fechei o escritório - escreve em tom irónico - arranjei uma editora e pus-me outra vez a pensar”.
Cria nesta altura o “Tempo e o Modo”, uma revista de pensamento e acção, cuja influência foi marcante do ponto de vista político e social.
Tanto a editora como a revista enfrentaram insuperáveis dificuldades económicas: “Gastei o meu dinheiro todo, parte do dos meus amigos e algum dos bancos”, porque “os livros que estava a editar me pareciam tão necessários que achava que estavam todos ansiosos por eles e nem me passava pela cabeça que ficariam por vender”, confessou posteriormente Alçada Baptista.
Criou em 1965 outra revista: “Concilium”, assumidamente católica, pós-conciliar, e que não conseguiu o imprimatur da hierarquia da Igreja portuguesa. Ficou sediada na residência do famoso bispo de Olinda Recife, D.Hélder Câmara, e saiu com o imprimatur do Presidente da Conferência Episcopal Brasileira.
Em 1971, publica “Peregrinação Interior (vol. I) - Reflexões sobre Deus”, que marca a sua verdadeira estreia como escritor. Muito conhecido o seu primeiro romance, de 1985, “Os Nós e os Laços”. Sempre muito interventivo, Alçada Baptista escreveu para jornais, cultivou amizades e afectos, e publicou muitas obras, a última das quais “ A Cor dos Dias”, em Novembro de 2003.
Morreu no passado dia 7 de Dezembro, aos 81 anos. “Sinto que a procura séria de Deus - deixou escrito Alçada Baptista - passa necessariamente pela interrogação e pela liberdade e descobri que ter fé é interrogar livremente o mistério de Deus”.
N.M.
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