2008/05/08

Etty Hillesum

Desde há poucos dias está à nossa disposição, em português, o “Diário” de Etty Hillesum. Trata-se do sétimo volume de Teofanias, da responsabilidade de José Tolentino Mendonça.

Foi a 9 de Março de 1941, com vinte e sete anos, que Esther (Etty) Hillesum começou a escrever o primeiro dos oito cadernos de papel quadriculado do seu Diário, certamente longe de imaginar que começava aí uma das aventuras literárias e espirituais mais significativas do século XX.

 

Etty era a mais velha dos três filhos de um casal judeu, urbano, sem especial vinculação religiosa. Durante anos, a sua principal ocupação foi uma licenciatura em Direito, que a bem dizer lhe era indiferente, atraída pelo estudo das línguas eslavas e da literatura russa. Com graça, conta que, ainda em jejum, começava muitos dos seus dias lendo Dostoiévski.

Etty deixa transparecer no seu Diário a imagem de uma mulher elegante, feminina, com um toque de mundaneidade. A mudança vai desenvolver-se em três encontros decisivos: o primeiro tem o nome de uma pessoa; o segundo tem o nome de um lugar; o terceiro não tem nome: é o encontro com o próprio Inominável.

O projecto de um diário pessoal surge a Etty Hillesum como proposta terapêutica feita por Julius Spier (nomeado pela inicial do apelido, S.). Etty conta que foi ao seu encontro com um grande sentimento de solidão e insegurança: «quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão e se ocupasse de mim». Spier representou indiscutivelmente para Etty Hillesum um verdadeiro iniciador na vida espiritual, o «obstetra da minha alma», para utilizar palavras suas. Ele ensinou-lhe «a pronunciar com naturalidade o nome de Deus». Iniciou-a na prática da oração. É ele quem lhe aconselha a leitura do Antigo e do Novo Testamento, ou de autores como Santo Agostinho e Tomás de Kempis. E, por outro lado, Etty conseguiu progressivamente trabalhar a sua autonomia, revisitar de forma distanciada e original o que recebia dele, defender o seu próprio espaço de deliberação. 

No tempo em que o Diário avança, a Holanda surge cada vez mais na mira expansionista do nazismo. A 29 de Abril de 1942 os judeus foram obrigados a usar a estrela de David. É curioso que, nesse mesmo dia, o sábado de 20 Junho de 1942, há em Amesterdão outra rapariga, bem mais nova do que ela, também a escrever um diário: chama-se Anne Frank.

Etty trabalha como dactilógrafa numa das secções do Conselho Judaico e tem o que ela chama a primeira experiência de descida ao «inferno». Dá-se conta, brutalmente, de que a imensa maioria dos judeus que primeiro estavam destinados à deportação eram os pobres. Decide então pedir para os acompanhar como voluntária no Campo de Concentração de Westerbork. Mesmo podendo permanecer em Amesterdão ela escreve: «Apaixonei-me tanto por esse Westerbork e tenho saudades de lá. Estes meses entre o arame farpado foram os meus meses mais intensos e ricos».

Um dos aspectos mais comoventes é perceber o lugar da Literatura na viagem imensa que Etty realiza. Ela começa por chamar-lhe «a minha segunda pátria». O Diário está cheio de referências a horas de leitura compulsiva, mesmo antes do pequeno-almoço, horas de explicitado prazer: de Santo Agostinho a Hegel, aos seus amados russos (Dostoiévski, Tolstói …). Quando parte para o Campo de Concentração tem apenas uma pequena mochila. Faz então as escolhas decisivas. Escreve: «Quero memorizar uma coisa para os meus momentos mais difíceis e também a quero ter sempre à mão: que Dostoiévski passou quatro anos em desterro na Sibéria tendo a Bíblia por única leitura.» E leva consigo a Bíblia. Além desta, dois livros mais a acompanharão sempre, ambos de Rainer Maria Rilke: O Livro das Horas e Cartas a um Jovem Poeta.

Em Westerbork, Etty irrompe finalmente como escritora: «Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus em mim que poderia desenvolver-se até se tornar um poeta. Num campo assim tem de haver contudo um poeta que experimenta a vida lá, e lá também a poderá cantar». Intui fulgurantemente é que a experiência daquele inferno histórico exige a necessidade de uma nova gramática. «Vou ter de achar uma linguagem nova», escreveu ela. E achou. Escreve algumas das orações mais extraordinárias que um ser humano pode proferir, não na amplidão majestosa de um templo, mas no espaço putrescente da latrina comum, onde se refugiava de madrugada em busca de um instante de silêncio e de concentração. Vemos a enamorada de Deus esgotar-se em atenções aos deportados, curando, intercedendo, ela própria ferida por dores violentas, sempre à procura de uma janela donde se alcance um fragmento de céu. Seguimo-la na leitura que faz do Evangelista Mateus, «o meu bom Mateus», nos comentários aos textos de Paulo e de Santo Agostinho como se de uma mestra experimentada nos caminhos do espírito se tratasse. Lemos «Gostaria muito de viver como os lírios do campo. Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo», e é difícil recordar que quem nos fala é aquela rapariga de Amesterdão que ali chegou há poucos meses.

No meio da tortura absoluta, é ela quem se preocupa com Deus. «Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares», escreve. Ou então: «Se eu estivesse encarcerada numa cela acanhada e uma nuvem passasse ao longo da minha janela gradeada, então eu iria trazer-te essa nuvem, meu Deus, se pelo menos tivesse forças para isso.» A sua oração é de agradecimento e de mil pequenas atenções: o perfume de uma flor, a musicalidade de uma palavra, a beleza indizível de um encontro.

É também uma prece nocturna, povoada de dilacerantes interrogações: «Às vezes pergunto-me, num momento difícil como esta noite, quais são os planos que tens para mim, tu Deus.» Mas o traço mais forte é o de uma impressionante e inexplicável confiança: “Hoje, vendo bem, vivi coisas grandiosas e esta noite também, meu Deus, agradeço-te por eu poder suportar tudo e por haver poucas coisas que não ponhas no meu caminho».

A 30 de Novembro de 1943, a Cruz Vermelha comunicou a sua morte em Auschwitz.

Escrito por N.M. em 00:01:49 | Link permanente | Comments (0) |
1 2