Tuesday, March 31, 2009

Karl Rahner

“Ajudar as pessoas a serem crentes”

Karl Rahner, um dos mais importantes teólogos do século XX, nasceu a 5 de Março de 1904 em Freiburg im Breisgau (Alemanha) e morreu há 25 anos, 30 de Março de 1984 perto de Innsbruck (Áustria). Este sacerdote jesuíta passou grande parte da sua vida a ensinar nas cidades de Innsbruck, Munique e Münster. Foi o teólogo do Cardeal König, arcebispo de Viena, no Concílio Vaticano II.
A obra teológica de Karl Rahner compõe-se de mais de quatro mil títulos relacionados com dois campos do saber: Filosofia e Teologia. Dos seus estudos destacam-se as obras: “O Espírito no Mundo” (1939), “Ouvinte da Palavra” (1941), “Escritos de Teologia”, 16 volumes escritos entre 1954 -1984 e “Curso Fundamental da Fé” (1976).
Rahner vivia com a preocupação de ajudar as pessoas do seu tempo a serem crentes. Insurgia-se contra o que considerava a vulgaridade dum mundo do qual Deus se encontrava exilado. Empenhou-se num diálogo com os não crentes, assente em dois princípios. Primeiro, fazer sobressair aquela experiência humana fundamental que se afigura comum às duas partes do diálogo. Deve funcionar como plataforma de entendimento a partir da qual se possa prosseguir a troca dos argumentos. Segundo, reconhecer o que cada interlocutor é. O crente sente e pensa como crente; o não crente sente e pensa como não crente.
Para Rahner, a teologia não era um fim em si mesmo. Na sua obra “A Coragem do Teólogo”, afirma: «sempre fiz teologia com vista à pregação, com vista à pastoral». Paradoxalmente era um grande especulativo e alguém desejoso de transmitir a fé.
Para Rahner, a teologia compromete quem a elabora até ao fundo da sua experiência de Deus. Parte da fé do autor e visa a fé do leitor. É como homem de fé que Rahner se dirige ao ser humano actual com o intuito de o ajudar a crer. A dificuldade do discurso de Rahner parece ter mesmo a ver com a sua ligação íntima ao que ele vive interiormente. Surge com uma carga experiencial profunda que dificilmente será compreendida numa só leitura. Pode ser necessário reler uma ou mais vezes.
Rahner fez a sua experiência pessoal de Deus na escola dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. É aqui que se descobre a matriz do seu pensamento. Central neste é o conceito de “experiência transcendental”. Trata-se da abertura do ser humano ao mistério absoluto, que para os crentes tem um nome; chama-se Deus. É uma abertura de horizonte infinito que marca o ser humano de forma estrutural. Ora, a descrição de tal experiência vem na linha do que é dito na primeira meditação dos Exercícios Espirituais (nº 23): o ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus. Tem de se fazer indiferente em relação às coisas criadas, de modo a desejar e escolher o que mais o conduz para o fim que é o seu. A liberdade é, então, uma ideia importante em Rahner, tal como acontece nos ditos Exercícios. É preciso passar duma liberdade limitada a outra mais livre, duma liberdade amarrada a coisas finitas a outra que tem o próprio Deus como horizonte.
A teologia de Rahner tem consciência da fé que ainda está à procura de si mesma e deve sempre ter-se a si mesma diante dos olhos, sendo neste sentido uma genuína “Theologia viatoris” (teologia de peregrinos).
Rahner opera na teologia o que se chama «viragem antropológica». Ele não acha que se deva levantar a questão de Deus no abstracto; quer formulá-la a partir do ser humano enquanto tal. Tem todo o sentido que assim seja. A revelação de Deus dirige-se ao ser humano e tem de o atingir no mais profundo do seu ser. É, então, a partir deste que se há-de verificar a credibilidade da proposta cristã. Não convém fazer teologia à margem da experiência fundamental do ser humano. É arrancando desta que se deve construir um discurso sobre Deus. Rahner procura manter em ligação estreita o essencial do ser humano e o essencial do cristianismo. Aquele interpela este; este deve estar preparado para lhe responder. Por um lado, o ser humano carrega consigo uma pergunta com a qual não cessa de se confrontar: a pergunta do que ele próprio é no fundo. Ele tem essa questão; melhor ainda, ele é essa questão. Por outro lado, deve-se pensar aquilo que o cristianismo tem fundamentalmente a dizer como resposta à tal questão que o ser humano é em si mesmo.
Através sua Teologia Formal e Fundamental, Karl Rahner exigiu da teologia uma tarefa nova e fecunda e propôs-lhe uma nova base para a sua auto-compreensão: com o aprofundamento da lógica e da ética existencial deu uma contribuição importante para a moral fundamental; como co-editor de um Manual de Teologia Pastoral em vários volumes, empenhou-se na fundamentação teológica da Teologia Pastoral e dedicou uma série de estudos de grande importância às questões de fronteira entre a Dogmática e a Exegese.
A Teologia de Rahner confronta-se também com as exigências da moderna compreensão que as ciências modernas oferecem do mundo. Testemunho deste confronto são as obras: “Ciência como Confissão Religiosa”, “A Cristologia numa Visão Evolutiva do Mundo”, “A Auto-compreensão da Teologia diante das Exigências das Ciências Naturais”, “Cristianismo e o Homem Novo”, etc. Estes estudos confirmam com que seriedade e com que vigor Rahner tem em conta as exigências e os problemas do mundo moderno, procurando que a sua actividade teológica seja sempre um serviço à vinda de Jesus Cristo, Verbo Encarnado para os homens de hoje e de sempre.
Nas suas obras “Palavras Pronunciadas para o Silêncio”, “Sobre a Necessidade e a Bênção da Oração”, “Maria, a Mãe de Jesus”, “Ano Litúrgico”, os numerosos artigos publicados na Revista Geist und Leben, o terceiro volume de seus “Escritos de Teologia”, Karl Rahner mostra como a alta teologia deve saber levar a sério as “coisas pequenas” e a vida “concreta”. Em todas estas publicações, manifesta aquele imenso desejo: fazer os homens mais amantes, mais piedosos, oferecer-lhes uma ajuda para a sua auto-compreensão religiosa. N.M.

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Thursday, March 5, 2009

D. Hélder da Câmara

Numa das suas passagens por Portugal, D. Hélder da Câmara afirmou que “ninguém nasce para ser escravo ou mendigo”. No entanto, ao observar a realidade que o circundava, o antigo bispo de Olinda e Recife (Brasil) via que eles existiam e estavam bem perto do pastor.

A cidade de Fortaleza (Brasil) viu nascer, a 7 de Fevereiro de 1909, Hélder da Câmara. Filho de uma família pobre e numerosa (dos treze irmãos apenas oito conseguiram sobreviver), os pais deram-lhe o nome de um pequeno porto holandês: Hélder. Aos 14 anos entrou no Seminário diocesano da cidade natal (Prainha de São José), sendo metade das despesas pagas pela Obra das Vocações Sacerdotais.
Recebeu a ordenação sacerdotal em 1931 e, cinco anos depois, foi enviado para o Rio de Janeiro, onde se tornou animador da Acção Católica Brasileira e, posteriormente, seu assistente nacional. Nos ouvidos ressoam-lhe palavras antigas do pai: “Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos.”
Apesar de ter ficado conhecido como ícone da paz e irmão dos pobres, nos primeiros tempos de padre esteve ligado ao movimento «Acção Integrista Brasileiro», próximo das teses de Mussolini e do corporativismo português. Aos olhos de alguns era uma «persona non grata». Mais tarde, D. Hélder da Câmara explica esse episódio: “Participei num movimento de que estava convencido. O grande combate era entre o Este e o Oeste, os Estados Unidos e a União Soviética”. E acrescenta: “Mas depressa me apercebi que mais grave do que essa luta era a que se travava entre o Norte e o Sul”.
A Segunda Guerra Mundial e o agravamento da situação social no Brasil reconduziram D. Hélder da Câmara ao lugar de líder da contestação social e religiosa no Brasil. Em 1952 é nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro pelo papa Pio XII.
Poucos anos antes da sua nomeação trabalhou na Nunciatura Apostólica do Rio e, através de contactos directos com Monsenhor Montini (futuro Papa Paulo VI), conseguiu que a Secretaria de Estado do Vaticano aprovasse a constituição da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), sendo precursora das Conferências Episcopais criadas, mais tarde, pelo II Concílio do Vaticano.
Depois da aprovação da CNBB, D. Hélder propõe ao Vaticano a fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). A autorização chegou em 1955, acumulando D. Hélder Câmara o cargo de Secretário-Geral da CNBB e Vice-presidente da CELAM.
Paralelamente à dinamização destes dois organismos, o prelado brasileiro empenhou-se também no campo social. Em 1956, fundou a Cruzada S. Sebastião (destinada à solução dos problemas habitacionais nas favelas) e, três anos mais tarde (1959) criou o Banco da Providência (entidade de assistência social para os casos de miséria absoluta).
Em 1964, foi nomeado arcebispo de S. Luis do Maranhão e meses depois é enviado para Olinda e Recife, onde permanecerá, como bispo residencial, durante vinte anos. “Aqui eu sonhei com uma obra em que pudesse trabalhar não para o povo mas com o povo” - sublinhou na altura. Preocupa-se com o problema do desenvolvimento e da pobreza em todo o nordeste brasileiro. A sua voz profética ecoava, apesar das perseguições que lhe moveram.
Em 1968, o pastor daquele território eclesial publicou o livro «Revolução dentro da Paz». Dois anos depois, uma campanha difamatória impede-o de receber o Prémio Nobel da Paz. Foi acusado de demagogo, exibicionista e “emissário camuflado de Fidel Castro e Mao”. Nunca recebeu galardão da Paz, no entanto o município de Oslo (Noruega) concedeu-lhe (em 1974) um prémio de valor equivalente. O seu prestígio internacional era intocável e recebeu o doutoramento «Honoris Causa» de várias universidades. O Japão atribuiu-lhe (1983) o prémio Niwano para a Paz, enquanto a Itália o distinguiu com o Prémio Balzan.
Trabalhar com os pobres era a sua paixão. No entanto, da sua pena saíram várias obras literárias: «O deserto é fértil» (1971); «Cristianismo, Socialismo, Capitalismo» (1973); «Nossa senhora no meu caminho» (1981) e «Utopias peregrinas» (1993). Dois poemas seus inspiraram uma oratória e um ballet: «Sinfonia dos dois mundos» (musicada pelo Pe. Pierre Kaelin) e «Missa para um tempo futuro» (com coreografia de Maurice Béjart).
A 7 de Julho de 1980, durante a viagem de João Paulo II ao Brasil, o papa polaco reabilita publicamente a sua imagem ao abraçá-lo efusivamente e dando-lhe o maior título de sempre: «Irmão dos pobres e meu irmão». Um gesto ovacionado por uma multidão perplexa. No mês de Abril de 1984, o «bispo vermelho e dos pobres» despede-se da sua diocese, depois de Roma ter aceite a sua resignação por limite de idade. “Pouco importa que um bispo se jubile; a Igreja continua” - disse D. Hélder Câmara na Eucaristia celebrada no Estádio do Recife perante 30 mil pessoas.
A 27 de Agosto de 1999, o homem que tinha como lema «In Manus Tuas» (Nas Tuas Mãos) despediu-se da vida terrena. Quando soube da sua morte, D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal disse: “um gigante da história da Igreja que impressionava pela sua fragilidade humana, mas albergava uma coragem do tamanho do mundo”.

Posted by N.M. at 00:24:27 | Permalink | Comments (2)