Karl Rahner
“Ajudar as pessoas a serem crentes”
Karl Rahner, um dos mais importantes teólogos do século XX, nasceu a 5 de Março de 1904 em Freiburg im Breisgau (Alemanha) e morreu há 25 anos, 30 de Março de 1984 perto de Innsbruck (Áustria). Este sacerdote jesuíta passou grande parte da sua vida a ensinar nas cidades de Innsbruck, Munique e Münster. Foi o teólogo do Cardeal König, arcebispo de Viena, no Concílio Vaticano II.
A obra teológica de Karl Rahner compõe-se de mais de quatro mil títulos relacionados com dois campos do saber: Filosofia e Teologia. Dos seus estudos destacam-se as obras: “O Espírito no Mundo” (1939), “Ouvinte da Palavra” (1941), “Escritos de Teologia”, 16 volumes escritos entre 1954 -1984 e “Curso Fundamental da Fé” (1976).
Rahner vivia com a preocupação de ajudar as pessoas do seu tempo a serem crentes. Insurgia-se contra o que considerava a vulgaridade dum mundo do qual Deus se encontrava exilado. Empenhou-se num diálogo com os não crentes, assente em dois princípios. Primeiro, fazer sobressair aquela experiência humana fundamental que se afigura comum às duas partes do diálogo. Deve funcionar como plataforma de entendimento a partir da qual se possa prosseguir a troca dos argumentos. Segundo, reconhecer o que cada interlocutor é. O crente sente e pensa como crente; o não crente sente e pensa como não crente.
Para Rahner, a teologia não era um fim em si mesmo. Na sua obra “A Coragem do Teólogo”, afirma: «sempre fiz teologia com vista à pregação, com vista à pastoral». Paradoxalmente era um grande especulativo e alguém desejoso de transmitir a fé.
Para Rahner, a teologia compromete quem a elabora até ao fundo da sua experiência de Deus. Parte da fé do autor e visa a fé do leitor. É como homem de fé que Rahner se dirige ao ser humano actual com o intuito de o ajudar a crer. A dificuldade do discurso de Rahner parece ter mesmo a ver com a sua ligação íntima ao que ele vive interiormente. Surge com uma carga experiencial profunda que dificilmente será compreendida numa só leitura. Pode ser necessário reler uma ou mais vezes.
Rahner fez a sua experiência pessoal de Deus na escola dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. É aqui que se descobre a matriz do seu pensamento. Central neste é o conceito de “experiência transcendental”. Trata-se da abertura do ser humano ao mistério absoluto, que para os crentes tem um nome; chama-se Deus. É uma abertura de horizonte infinito que marca o ser humano de forma estrutural. Ora, a descrição de tal experiência vem na linha do que é dito na primeira meditação dos Exercícios Espirituais (nº 23): o ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus. Tem de se fazer indiferente em relação às coisas criadas, de modo a desejar e escolher o que mais o conduz para o fim que é o seu. A liberdade é, então, uma ideia importante em Rahner, tal como acontece nos ditos Exercícios. É preciso passar duma liberdade limitada a outra mais livre, duma liberdade amarrada a coisas finitas a outra que tem o próprio Deus como horizonte.
A teologia de Rahner tem consciência da fé que ainda está à procura de si mesma e deve sempre ter-se a si mesma diante dos olhos, sendo neste sentido uma genuína “Theologia viatoris” (teologia de peregrinos).
Rahner opera na teologia o que se chama «viragem antropológica». Ele não acha que se deva levantar a questão de Deus no abstracto; quer formulá-la a partir do ser humano enquanto tal. Tem todo o sentido que assim seja. A revelação de Deus dirige-se ao ser humano e tem de o atingir no mais profundo do seu ser. É, então, a partir deste que se há-de verificar a credibilidade da proposta cristã. Não convém fazer teologia à margem da experiência fundamental do ser humano. É arrancando desta que se deve construir um discurso sobre Deus. Rahner procura manter em ligação estreita o essencial do ser humano e o essencial do cristianismo. Aquele interpela este; este deve estar preparado para lhe responder. Por um lado, o ser humano carrega consigo uma pergunta com a qual não cessa de se confrontar: a pergunta do que ele próprio é no fundo. Ele tem essa questão; melhor ainda, ele é essa questão. Por outro lado, deve-se pensar aquilo que o cristianismo tem fundamentalmente a dizer como resposta à tal questão que o ser humano é em si mesmo.
Através sua Teologia Formal e Fundamental, Karl Rahner exigiu da teologia uma tarefa nova e fecunda e propôs-lhe uma nova base para a sua auto-compreensão: com o aprofundamento da lógica e da ética existencial deu uma contribuição importante para a moral fundamental; como co-editor de um Manual de Teologia Pastoral em vários volumes, empenhou-se na fundamentação teológica da Teologia Pastoral e dedicou uma série de estudos de grande importância às questões de fronteira entre a Dogmática e a Exegese.
A Teologia de Rahner confronta-se também com as exigências da moderna compreensão que as ciências modernas oferecem do mundo. Testemunho deste confronto são as obras: “Ciência como Confissão Religiosa”, “A Cristologia numa Visão Evolutiva do Mundo”, “A Auto-compreensão da Teologia diante das Exigências das Ciências Naturais”, “Cristianismo e o Homem Novo”, etc. Estes estudos confirmam com que seriedade e com que vigor Rahner tem em conta as exigências e os problemas do mundo moderno, procurando que a sua actividade teológica seja sempre um serviço à vinda de Jesus Cristo, Verbo Encarnado para os homens de hoje e de sempre.
Nas suas obras “Palavras Pronunciadas para o Silêncio”, “Sobre a Necessidade e a Bênção da Oração”, “Maria, a Mãe de Jesus”, “Ano Litúrgico”, os numerosos artigos publicados na Revista Geist und Leben, o terceiro volume de seus “Escritos de Teologia”, Karl Rahner mostra como a alta teologia deve saber levar a sério as “coisas pequenas” e a vida “concreta”. Em todas estas publicações, manifesta aquele imenso desejo: fazer os homens mais amantes, mais piedosos, oferecer-lhes uma ajuda para a sua auto-compreensão religiosa. N.M.