Daniel Serrão
O valor da vida merece de todos o mesmo respeito
A ciência está legitimamente na busca de uma maior eficácia, melhoramento das técnicas e da compreensão das causas das doenças e das incapacidades para as curar. Descobertas recentes parecem apressar a sociedade na tentativa de controlar sistematicamente os nascimentos, a doença e a morte.
Nasceu em Vila Real a 1 de Março de 1928, completando em 1951 o Curso de Medicina, com média final de 17 valores. Casou em 1958 com Maria do Rosário de quem teve seis filhos e destes tem, actualmente, nove netos.
Doutorou-se em 1959, com 19 valores. Concorreu em 1961 a Professor extraordinário de Anatomia Patológica e foi aprovado por unanimidade. Concorreu a Professor Catedrático em 1971, também unanimemente aprovado, assumiu a direcção do Serviço Académico e Hospitalar de Anatomia Patológica.
De 24 de Junho de 1975 até 30 de Junho de 1976 esteve demitido de todas as suas funções em consequência de um saneamento selvagem, que foi anulado por decisão do Conselho da Revolução, tendo-lhe sido pagos os vencimentos dos doze meses durante os quais foi impedido de exercer as suas funções académicas e hospitalares.
Montou e dirigiu um Laboratório privado de Anatomia Patológica que, de Julho de 1975 até Dezembro de 2002, realizou um milhão e seiscentos mil exames histológicos e citológicos para hospitais públicos e para clientes privados. Foi jubilado em 1 de Março de 1998.
Daniel Serrão fala com frequência das fronteiras e limites da ciência no que respeita à investigação: “Actualmente a fronteira mais aceite pela Sociedade é a dignidade humana. Quando no final da Segunda Guerra Mundial os vencedores e os vencidos se sentiram horrorizados com os milhões de seres humanos mortos fizeram um apelo ao conceito de dignidade humana como a via adequada para acabar com as guerras entre as pessoas e, por via destas, com a guerra entre as nações. A ONU aprovou, há 60 anos em Assembleia Geral, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, magna Carta da Paz. O conjunto destes direitos configura a dignidade humana. Respeitá-los é respeitar e honrar dignidade humana.”
A investigação científica é essencial e não se pode pôr em causa, mas sobre o que fazer para controlar o seu uso, afirma Daniel Serrão: “De facto a investigação deve ser livre porque dela se espera um melhor conhecimento da biologia humana e o conhecimento é libertador. Mas devemos vigiar o uso do conhecimento em intervenções sobre o ser humano porque é no uso que pode surgir o abuso. Nem tudo o que pode, tecnicamente, ser feito, deve ser feito.
E a dignidade humana é a fronteira do dever. A ética médica é o meio com o qual se avalia um determinado procedimento. Se, por exemplo, uma empresa farmacêutica quer experimentar um novo medicamento em seres humanos, a ética exige que as pessoas sejam informadas de todos os riscos e benefícios e dêem livremente o seu consentimento.
Sem este consentimento livre e esclarecido da pessoa há ofensa à dignidade humana. Se um biólogo quer destruir embriões humanos para simples investigação a ética diz que se trata de ofensa à dignidade humana porque o embrião humano é, seguramente, um ser vivo da espécie humana, com direito absoluto à vida e ao desenvolvimento.”
São, portanto, muitos os perigos que corre a investigação científica: “O principal perigo é o do investigador esquecer que é um cidadão como os outros, com os mesmos direitos e os mesmos deveres. E que, por isso, lhe cabe defender a dignidade humana em todas as situações, particularmente as que decorrem do seu trabalho como cientista. O cientista “louco” pode servir para filmes de ficção, mas a realidade tem de ser completamente diferente. A investigação tem de ser transparente e estar sujeita a escrutínio público. Lembremos que quem paga a investigação são os cidadãos com os seus impostos.”
Sobre como conciliar ética científica e moral cristã, Daniel Serrão declara: “O cientista cristão, e são numerosos em todo o mundo e em todos os campos de investigação, estará atento ao melhor bem da pessoa e sabe que nem tudo o que é tecnicamente possível é aceitável pela sua consciência de cristão. Mas há cientistas que não são cristãos. A estes, há que lembrar-lhes que cristãos e não cristãos devem respeito à dignidade humana e aos valores que a definem. Aqui não há diferença entre uns e outros. A diferença está no fundamento. Para mim como cristão, o fundamento é transcendental, é a filiação no acto criador de Deus. Para o cientista ateu o fundamento é a natureza e as leis que a inteligência vai descobrindo. Mas o valor vida merece de uns e de outros o mesmo respeito”.










