Thursday, May 8, 2008

Etty Hillesum

Desde há poucos dias está à nossa disposição, em português, o “Diário” de Etty Hillesum. Trata-se do sétimo volume de Teofanias, da responsabilidade de José Tolentino Mendonça.

Foi a 9 de Março de 1941, com vinte e sete anos, que Esther (Etty) Hillesum começou a escrever o primeiro dos oito cadernos de papel quadriculado do seu Diário, certamente longe de imaginar que começava aí uma das aventuras literárias e espirituais mais significativas do século XX.

 

Etty era a mais velha dos três filhos de um casal judeu, urbano, sem especial vinculação religiosa. Durante anos, a sua principal ocupação foi uma licenciatura em Direito, que a bem dizer lhe era indiferente, atraída pelo estudo das línguas eslavas e da literatura russa. Com graça, conta que, ainda em jejum, começava muitos dos seus dias lendo Dostoiévski.

Etty deixa transparecer no seu Diário a imagem de uma mulher elegante, feminina, com um toque de mundaneidade. A mudança vai desenvolver-se em três encontros decisivos: o primeiro tem o nome de uma pessoa; o segundo tem o nome de um lugar; o terceiro não tem nome: é o encontro com o próprio Inominável.

O projecto de um diário pessoal surge a Etty Hillesum como proposta terapêutica feita por Julius Spier (nomeado pela inicial do apelido, S.). Etty conta que foi ao seu encontro com um grande sentimento de solidão e insegurança: «quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão e se ocupasse de mim». Spier representou indiscutivelmente para Etty Hillesum um verdadeiro iniciador na vida espiritual, o «obstetra da minha alma», para utilizar palavras suas. Ele ensinou-lhe «a pronunciar com naturalidade o nome de Deus». Iniciou-a na prática da oração. É ele quem lhe aconselha a leitura do Antigo e do Novo Testamento, ou de autores como Santo Agostinho e Tomás de Kempis. E, por outro lado, Etty conseguiu progressivamente trabalhar a sua autonomia, revisitar de forma distanciada e original o que recebia dele, defender o seu próprio espaço de deliberação. 

No tempo em que o Diário avança, a Holanda surge cada vez mais na mira expansionista do nazismo. A 29 de Abril de 1942 os judeus foram obrigados a usar a estrela de David. É curioso que, nesse mesmo dia, o sábado de 20 Junho de 1942, há em Amesterdão outra rapariga, bem mais nova do que ela, também a escrever um diário: chama-se Anne Frank.

Etty trabalha como dactilógrafa numa das secções do Conselho Judaico e tem o que ela chama a primeira experiência de descida ao «inferno». Dá-se conta, brutalmente, de que a imensa maioria dos judeus que primeiro estavam destinados à deportação eram os pobres. Decide então pedir para os acompanhar como voluntária no Campo de Concentração de Westerbork. Mesmo podendo permanecer em Amesterdão ela escreve: «Apaixonei-me tanto por esse Westerbork e tenho saudades de lá. Estes meses entre o arame farpado foram os meus meses mais intensos e ricos».

Um dos aspectos mais comoventes é perceber o lugar da Literatura na viagem imensa que Etty realiza. Ela começa por chamar-lhe «a minha segunda pátria». O Diário está cheio de referências a horas de leitura compulsiva, mesmo antes do pequeno-almoço, horas de explicitado prazer: de Santo Agostinho a Hegel, aos seus amados russos (Dostoiévski, Tolstói …). Quando parte para o Campo de Concentração tem apenas uma pequena mochila. Faz então as escolhas decisivas. Escreve: «Quero memorizar uma coisa para os meus momentos mais difíceis e também a quero ter sempre à mão: que Dostoiévski passou quatro anos em desterro na Sibéria tendo a Bíblia por única leitura.» E leva consigo a Bíblia. Além desta, dois livros mais a acompanharão sempre, ambos de Rainer Maria Rilke: O Livro das Horas e Cartas a um Jovem Poeta.

Em Westerbork, Etty irrompe finalmente como escritora: «Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus em mim que poderia desenvolver-se até se tornar um poeta. Num campo assim tem de haver contudo um poeta que experimenta a vida lá, e lá também a poderá cantar». Intui fulgurantemente é que a experiência daquele inferno histórico exige a necessidade de uma nova gramática. «Vou ter de achar uma linguagem nova», escreveu ela. E achou. Escreve algumas das orações mais extraordinárias que um ser humano pode proferir, não na amplidão majestosa de um templo, mas no espaço putrescente da latrina comum, onde se refugiava de madrugada em busca de um instante de silêncio e de concentração. Vemos a enamorada de Deus esgotar-se em atenções aos deportados, curando, intercedendo, ela própria ferida por dores violentas, sempre à procura de uma janela donde se alcance um fragmento de céu. Seguimo-la na leitura que faz do Evangelista Mateus, «o meu bom Mateus», nos comentários aos textos de Paulo e de Santo Agostinho como se de uma mestra experimentada nos caminhos do espírito se tratasse. Lemos «Gostaria muito de viver como os lírios do campo. Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo», e é difícil recordar que quem nos fala é aquela rapariga de Amesterdão que ali chegou há poucos meses.

No meio da tortura absoluta, é ela quem se preocupa com Deus. «Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares», escreve. Ou então: «Se eu estivesse encarcerada numa cela acanhada e uma nuvem passasse ao longo da minha janela gradeada, então eu iria trazer-te essa nuvem, meu Deus, se pelo menos tivesse forças para isso.» A sua oração é de agradecimento e de mil pequenas atenções: o perfume de uma flor, a musicalidade de uma palavra, a beleza indizível de um encontro.

É também uma prece nocturna, povoada de dilacerantes interrogações: «Às vezes pergunto-me, num momento difícil como esta noite, quais são os planos que tens para mim, tu Deus.» Mas o traço mais forte é o de uma impressionante e inexplicável confiança: “Hoje, vendo bem, vivi coisas grandiosas e esta noite também, meu Deus, agradeço-te por eu poder suportar tudo e por haver poucas coisas que não ponhas no meu caminho».

A 30 de Novembro de 1943, a Cruz Vermelha comunicou a sua morte em Auschwitz.

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Wednesday, March 5, 2008

Cardeal Stanislaw Dziwisz

O Cardeal Stanislaw Dziwisz, antigo secretário pessoal de João Paulo II, publicou uma obra que recolhe as suas memórias pessoais. O actual Arcebispo de Cracóvia revela, no livro “Uma vida com Karol”, entre outras coisas, que os médicos que operaram o Papa polaco em 1981, depois do atentado na Praça de São Pedro, tinham a certeza de que ele morreria.

O livro “Uma vida com Karol” foi escrito com a colaboração do jornalista Gian Franco Svidercoschi e passa em revista todas as fases da vida do Papa polaco, desde os anos na Polónia (1966-1978), quando Wojtyla era Arcebispo de Cracóvia, aos muitos episódios do pontificado (1978-2005). O testemunho do Cardeal Dziwisz é apresentado como um retrato “inédito e humaníssimo” de um grande Papa.

Num capítulo intitulado “Aquelas duas balas”, o Cardeal Dziwisz relembra o que sentiu quando o turco Mehmet Ali Agca atingiu o Papa a tiro, no dia 13 de Maio de 1981. “Tentei segurá-lo, mas foi como se ele estivesse a ir embora devagar” - escreveu.

Muitas peripécias e dificuldades surgidas após o atentado são relatadas: no meio da confusão, João Paulo II foi levado por engano ao décimo andar, para depois então ir para a sala de cirurgia, no nono andar. Os funcionários arrombaram duas portas para que o Papa chegasse lá mais rapidamente. “O pior – lembra D. Stanislaw -  foi quando o Doutor Buzzonetti se aproximou de mim para pedir-me que administrasse ao Santo Padre a unção dos doentes, o que fiz de imediato, mas com o coração destroçado. Era como se me tivessem dito que não havia nada a fazer”.

Algumas das passagens criaram uma natural curiosidade. O Cardeal Dziwisz indica, por exemplo, que João Paulo II assistiu em directo ao colapso das Twins Towers de Nova Iorque, no 11 de Setembro de 2001. O mais estreito colaborador do Papa polaco afirma também estar convencido de que a União Soviética estava por detrás da tentativa de assassinato sofrida por este em 1981.

Um especial destaque vai para a revelação de que João Paulo II pensou seriamente em renunciar ao cargo em 2000, por causa das suas condições de saúde, chegando a admitir mudar as leis canónicas para determinar que os Papas renunciassem obrigatoriamente aos 80 anos. “Ele chegou à conclusão de que tinha de se submeter à vontade de Deus, isto é, permanecer (no cargo) enquanto Deus quisesse”- escreveu o Cardeal Dziwisz.

O secretário pessoal de Wojtyla também revelou que, à medida que a sua saúde piorava, João Paulo II criou “um procedimento específico para entregar a sua renúncia, no caso de não conseguir exercer o ministério de Papa até o fim”.

O último capítulo é dedicado aos momentos finais da vida do Papa polaco. Particularmente comovente é o relato da colocação do véu branco sobre o rosto de João Paulo II, já no caixão: “Era a última vez que via o seu rosto – escreve D.Stanislaw . mas principalmente o seu olhar, porque era o olhar o que mais impressionava nele. Por isso, fazia tudo muito lentamente para que esse instante durasse muito mais (…). Peguei no véu branco e coloquei-o sobre o seu rosto, com medo de que esse pano de seda pudesse incomodá-lo”.

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Wednesday, February 13, 2008

Jurgen Moltmann

 

Jürgen Moltmann nasceu em 1926 em Hamburgo. Iniciou seus estudos de teologia numa situação pouco comum. Com dezesseis (1943) foi convocado pelo exército alemão onde teve, segundo as suas palavras, “uma carreira breve e sem glória”. Após seis meses na guerra, esteve preso no campo de concentração de Northon-Camp, em Inglaterra. Ali se encontravam também alguns professores de teologia que ministravam lições aos seus companheiros; dentre eles, Jürgen Moltmann. Em 1948, regressou à Alemanha onde deu continuidade nos seus estudos na Universidade de Göttingen até 1952. De 1953 a 1958 exerceu actividades pastorais em Bremen.

O mistério da vida humana tem ocupado particularmente Moltmann, nos últimos anos. No seu pensamento tudo parte da “aceitação” incondicional da vida: Isto não é só Poesia e Psicologia, isto é provado pela moderna Neurobiologia. Se as pessoas nos aceitam e nos apreciam, nós ficamos motivados; se nos recusam e declinam, ficaremos desmotivados. É muito simples, todos nós o sabemos! E a moderna Neurobiologia confirma o que a antropologia e outras ciências defendem a todo o momento”.

É muito fácil colocar em palavras o propósito de nos aceitarmos uns aos outros. Dizer é fácil, - afirma o Teólogo - mas fazer nem sempre o é. Basta recordar as pessoas portadoras de deficiências como são excluídas da nossa sociedade. Não são aceites, muitas vezes, no mercado de trabalho. Isto é desumano e faz mal a estas pessoas, podendo ficar saturadas destas situações”.

O problema da relação entre os conhecimentos científicos e o procedimento ético constitui também uma das preocupações dos seus estudos:A Ciência e a Ética não estão muito longe uma da outra. O conhecimento científico é um conhecimento especializado. Mas, por exemplo, pertence ao corpo e deve ser integrado no próprio corpo. O corpo pertence à pessoa humana. E a pessoa humana pertence à sociedade humana. E a sociedade humana tem muitos sistemas. A vida é sagrada e tem sentido ser vivida. Portanto, temos de integrar os resultados das ciências especializadas. O doente, depois de operado, deve ser integrado e viver no ambiente do seu lar e da sua experiência, como doente que tem vida. Todas as ciências especializadas devem ser inseridas num largo contexto. Neste sentido, temos vários grupos de investigação nas Universidades, como a Química, a Biologia, a Medicina, o Direito. Estudam juntos a ciência da vida”.

A Teologia e o Magistério das Igrejas concentram-se cada vez mais no que é a vida e como deve ser vivida a vida, como a raça humana pode sobreviver e o que é melhor para ela neste mundo. “Há inúmeras questões à volta do conceito da vida – comenta Moltmann - . No livro de João Paulo II, “Teologia da Vida”, há uma especial relação da teologia da vida, entre a Encarnação do Natal, da Sexta-feira ao Domingo da Ressurreição, o Espírito da Vida de Pentecostes…. As outras Igrejas, como a minha – Protestante - desejam ardentemente que a Igreja Católica realize a doutrina do Concílio do Vaticano II”.

Jürgen Moltmann foi o fundador principal da Teologia da Esperança. À luz da ciência e da teologia, é importante a interpretação que Moltamnn faz sobre a escatologia cristã. Que relação existe entre a vida presente e as realidades futuras e últimas da vida para além da morte? A nossa experiência da vida – responde o Teólogo - é motivada pelas nossas expectativas. Se não se espera nada, não se pode experimentar nada; portanto, quanto mais se espera mais experiência se adquire. Por exemplo, se um homem não esperar o amor duma mulher bonita, nunca mais a encontra. Se espera algo, encontrá-lo-á!” Em suma, a Teologia da Esperança concebe um futuro que vem de Deus e que é conhecido por antecipação, isto é, no evento Cristo é antecipado o futuro da ressurreição e de vida que Deus doa à humanidade.

Escreve Moltamann: “O temor de Deus torna o homem sábio na maneira de lidar com os conhecimentos obtidos. Deste modo, entra em cena, ao lado do ethos científico, também o ethos do procedimento técnico em relação aos conhecimentos científicos. Sábio é diferenciar entre bom e mau. Sábio é fazer dos seus conhecimentos apenas aquilo que serve a vida, mas não servir àquilo que propaga a morte”.

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Thursday, January 3, 2008

Isabel Jonet

Mobiliza boas vontades e junta alimentos, coisas, talentos… para distribuir a quem precisa. Não receia afirmar que o que a motiva é a vivência da caridade, palavra desvirtuada, mas que significa “solidariedade com amor, com entrega de si mesmo”.

Isabel Jonet nasceu, em Lisboa, a 16 de Fevereiro de 1960, é casada e tem cinco filhos. Licenciou-se em Economia em 1982, na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Desde 1993, trabalha em regime de voluntariado, sendo actualmente Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome.

Sobre as motivações que a fazem permanecer à frente do Banco Alimentar, afirma: ”Foi uma opção de vida. Sinto-me realizada, quer do ponto de vista profissional quer do ponto de vista pessoal. Atrás de um computador transformamos rapidamente pessoas em números. Eu faço questão de ir aos bairros para não perder essa proximidade com as pessoas. É isso que me mantém aqui. Eu vejo como as pessoas vivem mal e sinto que através do meu trabalho no Banco Alimentar Contra a Fome essas pessoas podem viver um pouco melhor”.

Os Bancos Alimentares não existem só para dar de comer a quem tem fome, mas também para lutar contra o desperdício e a indiferença.Oitenta e nove por cento do que o BA distribuiu seria destruído. “Os 11 bancos – explica Isabel Jonet - seleccionam no terreno instituições de solidariedade social (IPSS). Vamos buscar onde sobra para entregar onde falta”.

Para Isabel Jonet é também muito gratificante o envolvimento voluntário de tantas pessoas:”Há pessoas de todas as idades, de todas as classes sociais, de todas as cores, de todos os credos, de muitas nacionalidades a trabalharem lado a lado por uma causa comum. De seis em seis meses cá estão sem a gente as convocar. Trabalho aqui todos os dias. Quase todos os dias me comovo. A relação com estas pessoas e com as instituições é o nosso bem mais precioso. Há uma relação de confiança que leva instituições a virem ter connosco na hora das aflições. Sabem que têm em nós um amigo que dá resposta aos problemas e não cobra nada”.

O Banco Alimentar descobriu que há outras formas de ajudar, ao constatar as dificuldades em gerir as Instituições de Solidariedade Social, pois não basta a boa vontade e a carolice: “A Entreajuda propõe fazer o mesmo que os Bancos Alimentares Contra a Fome fazem com os produtos alimentares, mas com serviços que vão contribuir de uma forma estruturante para as instituições libertarem recursos que podem afectar a outros sectores de interesse para a comunidade. Tem sido um projecto fascinante. Eu tinha medo que as instituições não acolhessem bem esta ideia até por receio de perderem algum poder. Foi bem acolhida pelas instituições e pelas empresas parceiras.

Gestores, juristas, economistas, informáticos, contabilistas… de diversas empresas ajudam gratuitamente na gestão qualificada das IPSS que solicitam essa ajuda É uma intervenção pontual fazendo com que as instituições tenham uma gestão organizada e sustentada no tempo. ”Para cada instituição - esclarece Isabel Jonet - há um tutor, um voluntário, um gestor muito qualificado, que vai à instituição e faz o diagnóstico. São pessoas disponibilizadas por empresas, ao abrigo do programa voluntariado-empresa, e que a Entreajuda coloca nas IPSS. Sempre em consonância com as direcções e sempre tendo em vista a missão e vocação das IPSS, o tutor propõe com a Entreajuda um plano de acção e recuperação daquela instituição. O grande desafio é conseguir que as instituições, mutualidades, misericórdias, grupos cáritas, conferências vicentinas… que há pelo país fora funcionem de forma correcta em termos de gestão e organização. Dessa maneira as pessoas que lideram essas organizações vão libertar recursos e tempo para dedicar às pessoas que apoiam. As instituições devem apoiar poucas famílias mas de uma maneira integral. Podem ter um papel fundamental em traçar um projecto de vida, ajudando cada família a quebrar ciclos de pobreza, fazer um trabalho de grande proximidade, promovendo uma verdadeira mudança de vida. Ao dar verbas cegas o Estado está a perpetuar a pobreza e muitas vezes a criar dependências”.

Foi criado há poucos meses o Banco de Bens Doados, que permite levar aos mais pobres coisas que as empresas ou as famílias não precisam e não conseguem vender: computadores, mobiliário, roupa de cama ou de banho que os hotéis renovaram, etc.

Sem qualquer conotação política ou religiosa, os Bancos Alimentares garantem comida a 219 mil pessoas em todo o país. Um trabalho colossal que nunca está acabado, sobretudo em anos como este de picos de desemprego, aumento das taxas de juro e do endividamento das famílias.

 

 

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Thursday, December 6, 2007

A Bíblia de Dostoiévski

Na viagem para a Sibéria, onde o esperavam anos de trabalhos forçados, uma mulher oferece a Dostoiévski uma Bíblia. A leitura e meditação da Sagrada Escritura vêm trazer harmonia ao seu caos interior, até à hora da morte.

Aos quinze anos perdeu a mãe, desgastada por uma vida infeliz e pela tísica galopante. Fica com o seu pai: possessivo, colérico e brutal; barbaramente assassinado pelos seus camponeses, desesperados pelos contínuos vexames. Nasce no coração de Dostoiévski a pergunta determinante: porquê a maldade humana?

Entusiasma-se pelo socialismo utópico. Sonha e acredita firmemente na fraternidade universal, no nascimento de uma sociedade sem classes. Foi preso por participar nas actividades de um grupo revolucionário e é condenado à morte. Perante as armas que lhe estavam apontadas para o matar, pensa:”Daqui a pouco estaremos todos em Cristo”. Ouve, entretanto, o grito do oficial: “Trata-se de uma brincadeira. O Czar na sua benevolência mudou a tua pena para quatro anos de trabalho na Sibéria”. Começa assim uma nova vida para Dostoiévski.

Em contacto com deportados violentos – como nunca acontecera com nenhum outro escritor – inicia a descobrir novas perspectivas, para mergulhar ainda mais nos obscuros meandros da alma humana. Na viagem para a Sibéria uma mulher oferece-lhe uma Bíblia. Lê-a. Experimenta uma forte conversão religiosa :“Penso que não existe nada de mais belo, profundo e perfeito do que Cristo”, “Se me demonstrassem que Cristo está fora da verdade e a verdade fora de Cristo, eu preferiria estar com Cristo mais do que com a verdade”.

Seguiram-se seis anos de trabalhos forçados. Na Sibéria, apaixona-se por Maria, uma mulher difícil, doente de tuberculose; empolgante, mas desequilibrada. Casam-se. Vivem um matrimónio penosamente infeliz. Ele ama-a; mas não se pode dizer o mesmo da parte da esposa.

Começam as crises de epilepsia que o impedem de trabalhar durante dias sucessivos. Para tentar resolver uma desesperada situação económica vicia-se no jogo.

Em poucos meses, morre a sua mulher, Maria; morre um irmão muito próximo e um amigo. No sofrimento encontra a inspiração. Escreve o incrível “Delito e Castigo”, talvez o livro mais belo da história. Para ele, a literatura torna-se profecia: via-se a si próprio como um profeta que ser salvar os seus concidadãos.

“A alma humana é um mistério que deve ser desvelado – dizia Dostoiévski – mesmo que passes toda a vida a procurar resolvê-lo, não penses ter perdido tempo”.

Eis que chega o milagre, que tem nome: Anna Grigorevna. Tinha vinte anos, culta, bela e prática. Começa como por ser sua secretária. Poucos meses depois casam-se. Dostoiévski tinha 46 anos. Anna é a mulher que trará estabilidade e paz à sua vida. É forte, muito sensível, pouco exigente, imensamente afectuosa e totalmente dedicada. Tem consciência que não será fácil viver ao lado de um homem tão complexo, atormentado por uma infinita inquietação interior. Logo na primeira noite do casamento apercebe-se da doença do marido, atingido por um violentíssimo ataque epiléptico. Continua a jogar e a gastar. Ela permanece a seu lado, sabendo que o seu amor poderá curar aquele génio. Compreende ainda que as crises físicas e psíquicas alimentam a sua veia artística. Cura-o do vício do jogo: não condenando-o, mas demonstrando-lhe todo o seu amor incondicionado. Chegando a vender as suas únicas calças de lã que possuía para arranjar-lhe dinheiro para o jogo. E em Baden Baden fazia muito frio. Nascem quatro filhos. Dostoiévski escreve os principais romances e Anna torna-se também administradora dos seus bens. Nesta obras, património da humanidade, o escritor condena a soberba luciferiana do homem nihilista que recusa a fé em Deus e pensa poder conferir a si próprio um sentido para a realidade.

Foram os anos em que mensalmente publica uma página do seu diário (Diário de um Escritor).

Procura com afã a verdade, nunca se deixando cair numa visão conformista. Morrem dois filhos e Dostoiévski entra em profunda crise. Frequenta o mosteiro Optina Pustyn, onde reencontra a serenidade.

Aproxima-se a morte. Chama a sua mulher e diz-lhe: “Vou morrer hoje”. Pede-lhe que vá buscar a sua Bíblia, aquela que guarda religiosamente desde a viagem para a Sibéria. Ela abre-a ao acaso. Lê a parábola do Filho Pródigo. Como ele, Dostoiévski regressa à Casa do Pai.

Baseado em Michele Genesio, in Città Nuova 19 (2007)

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Monday, October 29, 2007

Gilles Lipovetsky

 

 

Deu muito que falar com a obra a Era do Vazio. Na seu mais recente livro, A Felicidade Paradoxal, explica que a sociedade evoluiu para o hiperconsumo e surgiu o homo consumericus. A nossa civilização, no dizer de Lipovetsky, teria tudo para ser feliz. Mas não é!

 

 

Gilles Lipovetsky tem 63 anos. Filósofo e professor na Universidade de Grenoble, França, elevou o consumo, a moda, o efémero, o luxo e o individualismo a objecto de análise filosófica. A sua reflexão sobre a sociedade pós-moderna, ou hiper-moderna, rompeu as fronteiras da academia e conquistou o mundo.

Lipovetsky oferece-nos uma vasta obra traduzida em 18 línguas. Em Portugal, estreou-se na década de oitenta com o seu livro mais conhecido A Era do Vazio, seguindo-se o Império do Efémero, a Terceira Mulher, O Crepúsculo do Dever e o mais recente A Felicidade Paradoxal (Edições 70), lançado este ano.

A sociedade em que vivemos obriga-nos a actualizar o postulado de Descartes para consumo, logo existo. “Felizmente, não é bem assim – adverte, no entanto, Lipovetsky. - Seria uma pena se toda a existência se reduzisse ao consumo. (…). O bem, o mal, o amor, a generosidade, a solidariedade, não são bens de mercado”, pois  “apesar de quase todos os domínios da nossa vida estarem colonizados pela lógica do consumo, este não é a nossa razão de existir, nem é em função dele que organizamos a nossa existência”.

Surge, no entanto, o homo consumericus, em que o indivíduo deixa de consumir para mostrar aos outros e passa a consumir para se relacionar consigo próprio: “Na fase anterior do capitalismo o primado pertencia à identidade social e económica, hoje, é a identidade individual que conta”. As pessoas através do consumo, procuram dizer “eu”, ou seja, o consumo vai substituindo as tradições e a religião na formação da identidade.

Dá-se cada vez mais importância à dimensão hedonista do consumo, pois o que os consumidores procuram é o prazer e já não apenas a satisfação das necessidade básicas: ”O hiperconsumidor do presente procura viver novas experiências, melhorar a sua qualidade de vida, conservar a juventude e a saúde…, é algo para si e para um pequeno mundo à sua volta, pois as pessoas duvidam de si próprias e procuram segurança nas marcas de luxo que no fundo as valorizam, não só aos olhos dos outros como aos seus próprios olhos”.

Numa sondagem sobre a felicidade realizada em vários países da Europa, oitenta a noventa por cento das pessoas afirmavam ser felizes em todos os aspectos da vida. A par disso, aumentam as depressões, o stress, a ansiedade, as tentativas de suicídio, o consumo de ansiolíticos e antidepressivos e, segundo várias sondagens, metade das pessoas são infelizes na vida sexual.

Temos acesso a muitas coisas, mas isso não corresponde a mais felicidade. A felicidade paradoxal é essa tensão entre o que deveria, em princípio, fazer-nos felizes, essa potencialidade de felicidade e a realidade muito mais complexa e problemática da existência dos indivíduos.

Porque é que as pessoas não são felizes? A grande lição a tirar de tudo isto, segundo o filósofo é a seguinte: “Não temos grande poder sobre a felicidade, esta não depende de nós. Não somos nós que a controlamos, é ela que nos controla a nós. (…). Estou convencido de que o nosso poder sobre a felicidade é muito pequeno e isso dá uma lição de humildade aos modernos. Não há solução para a alegria de viver, é um mistério!”

Uma das causas de decepção, segundo Lipovetsky, está relacionada com as exageradas expectativas que cada um cria em relação, por exemplo, ao trabalho e ao amor, mas o  mal-estar do indivíduo prende-se sobretudo, na opinião de Lipovetsky, com o cada vez maior isolamento, pois “antigamente, havia a religião e a comunidade, que davam força. Hoje, há uma individualização que fragiliza as pessoas”.

Trata-se de procurar no consumo o que não se encontra na existência, no trabalho, na vida amorosa. Por isso este assume muitos vezes uma função terapêutica no mar da solidão:” É uma pequena droga, equivalente à missa de antigamente. Antes, quando tínhamos problemas, íamos à igreja pedir ajuda e conforto a Deus. Hoje, para esquecer os problemas, fazemos uma viagem, compramos roupas, vamos ao cabeleireiro. É uma forma de voltar a si”.

Daqui a alguns anos, os nossos vindouros olharão com estranheza para esta sociedade, pois, segundo Lipovetsky tem de haver outros valores e mais vida para além do consumo.

 

(Baseado em entrevista à Notícias Magazine de 04.10.2007)

 

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Saturday, October 6, 2007

Catalina Pestana

 

 

Catalina Pestana tinha decidido dedicar-se a ser avó a tempo inteiro, mas um convite inesperado fez mudar os seus planos de vida aos 55 anos. Desde o dia 5 de Dezembro de 2002 a Maio de 2007, foi a provedora da Casa Pia, uma instituição centenária e solidária, que é notícia permanente dos telejornais, pois “continua a haver abusadores dentro da Casa Pia e redes externas que usam os miúdos para abusos sexuais”.

Quando disse “sim” ao ministro Bagão Félix, sabia, naturalmente, que como provedora da Casa Pia, nas circunstâncias em que se encontrava esta instituição, a esperava algo de muito difícil. «Mas nunca nada do que imaginamos – afirma - é tão duro quanto a realidade!».

Foi ouvindo a primeira, a segunda, a terceira história, até lhes ter perdido a conta. Durante longos e pesados meses, as memórias de abusos repetiram-se, cheias de pormenor, de ansiedade, de medo. E cada um que vinha contava o que tinha acontecido, onde e quando e com quem, mas sem se perceber porquê. Ao ponto de o seu estômago, por vezes, não ter aguentado. «Mas é preciso ouvir o vigésimo quinto como se ouviu o primeiro - diz Catalina - , com a mesma atenção, o mesmo carinho, sobretudo com o sentido de que só assim estava a ser possível dar um certo alívio a esta gente».

Reconhece que recaiam sobre si «expectativas demasiado altas» e havia tanto para fazer! Mas nunca foi o «fazer coisas» que a assusta. Pelo contrário: «Arregaçar as mangas e pôr as coisas a andar foi sempre o que mais me entusiasmou, - diz a ex- provedora- é nisso que ainda hoje me sinto bem». O problema é o resto, aquele lado sombrio da Casa Pia que tem sustentado a agitação, a insegurança e a decepção internas e que tem impedido de começar a organizar o futuro. É muito clara ao afirmar: «Isto ainda está longe do fim».

Aos netos, durante o intenso trabalho como provedora, viu-os muito menos, claro. «E, felizmente, não tinham sequer idade para perceber o que se estava a passar». Por isso, quando eles a viam na televisão, limitavam-se a chamá-la, a querer falar com ela pelo ecrã — sem perguntas incómodas nem dúvidas inocentes.

Antes da ida para a Casa Pia, já Catalina Pestana tinha cruzado os caminhos da instituição. Na década de oitenta, foi professora no Colégio de Santa Catarina e não recorda, desse tempo, qualquer tipo de histórias sórdidas, bem pelo contrário.

O pai era operário dos mármores, mas também «um poeta louco», militante da LUAR (Liga de Unidade Acção Revolucionária, organização antifascista liderada por Palma Inácio). Em vésperas do 25 de Abril, ainda se mantinha na clandestinidade «Nós não sabíamos quais eram exactamente as actividades dele. Mas sempre tivemos noção exacta do que era o regime e de que existia a repressão», conta. De facto, Catalina e a irmã cresceram entre Pero Pinheiro, o Barreiro e Algés, a ouvir falar abertamente de política, a conhecer o mundo pelo som das rádios independentes da onda curta, a aprender e a gostar de teatro e poesia. “Herdei uma cultura operária – diz Catalina. O meu pai falava aos trabalhadores e convocava greves (…). Andava a declamar poesia pela país. Parecia uma boneca de corda. Depois percebi que era para camuflar as reuniões dos comités do PCP”.

A isso tudo, Catalina ainda junto curso de Filosofia e o alinhamento católico, transformado em progressista no final dos anos 60 e que lhe abriu as portas a uma das mais marcantes gerações do século XX português. Luís Moita, Nuno Teotónio Pereira o padre Felicidade Alves são referências que a acompanham em permanência. E ter participado activamente na vigília contra a guerra colonial, na noite de 31 de Dezembro de 1969, na Igreja de S. Domingos, ou na ocupação da Capela do Rato, em 1973, transformou-a a ela própria também numa espécie de referência geracional.

A experiência profissional de Catalina Pestana tem uma forte componente social, a que não é alheio, afirma quem a conhece, o facto de ter nascido numa família humilde e de ter crescido no seio dos grupos católicos progressistas.

Passados estes anos, Catalina poderá agora suspirar de alívio, apresentar trabalho feito e voltar à família: ao filho, biólogo marinho, aos sobrinhos, que criou desde pequenos, e, sobretudo, para junto dos netos. «Nesta altura, eles já têm sete e oito anos», diz, como se não fosse a tempo de ser avó.

Finalmente livre, sem o peso que representava a liderança da Casa Pia, Catalina Pestana revela que os abusos continuam e que foi instaurado um novo inquérito, pois “continua a haver abusadores dentro da Casa Pia e redes externas que usam os miúdos para abusos sexuais”. Como é possível?

(Baseado na entrevista da “Única” do “Expresso” de 15.02.2003 e da“Tabú” do “Sol” de 05.10.2007)

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Sunday, September 9, 2007

Cardeal Lustiger

O Cardeal Jean-Marie Lustiger, arcebispo emérito de Paris, faleceu no dia 5 de Agosto, um Domingo, aos 80 anos de idade. Apresentava-se como “cardeal, judeu e filho de emigrantes”.

Aarão Lustiger nasceu em Paris em 1926 de pais judeus, duma família vinda da Alta Silésia, na Polónia, da classe dos Lés, os servidores do Templo. «Nós éramos pobres - escreveu o Cardeal- eu não estava vestido como os outros estudantes, mas eu era muitas vezes o primeiro da escola, razão para me tornar mais conhecido». Apesar disso os colegas quando discutiam entre si diziam-lhe: «isto não te diz respeito judeu impuro».
Com a idade de 11 anos conheceu o nazismo na Alemanha. Na casa onde se hospedava encontrou um rapaz da juventude hitleriana que lhe mostrou uma faca dizendo: «No solstício do verão vamos matar todos os judeus». Foi neste período que lhe caiu nas mãos ao frequentar uma biblioteca, a Bíblia, e descobriu o Novo Testamento como o cumprimento do anunciado pelos profetas ao povo de Deus. Leu a bíblia com paixão, mas não o disse a ninguém. Tornou-se cristão mas os seus pais não aceitaram a sua decisão. A mãe levou-o a um rabino para o elucidar, mas por fim diz o religioso a sua mãe: «Não há nada a fazer, deixe-o seguir o seu caminho».
Foi baptizado com 14 anos, escolhendo então os nomes de João e Maria que ajuntou ao de Aarão. No fim da guerra o pai pede em vão a anulação do seu baptismo. A mãe morrera no campo de concentração de Auschwitz.
Como estudante na Sorbone, toma a decisão de ser padre. Com 43 anos é nomeado pároco, tendo como coadjutor o actual arcebispo de Paris Mons. André Vinght-Trois. João Paulo II nomeia-o bispo de Orléans e, no dia da ordenação, seu pai está presente numa cadeira da primeira fila. Após 15 meses é nomeado arcebispo de Paris.
O diálogo com os judeus, foi uma das características do Cardeal Lustiger que, no princípio, o rejeitaram. Com o passar dos anos os sentimentos de desconfiança dos judeus, dão lugar a orgulho deste filho do povo escolhido. Quando o Papa João Paulo II anuncia a sua intenção de fazer um acto de penitência pelas faltas do passado contra os judeus, o que suscitou muitas controvérsias, o cardeal Lustiger apoiou-o discretamente. Ele contribuiu para a organização da viagem do Papa à Terra Santa no ano 2000. O Cardeal procurou dialogar com os judeus ortodoxos.
Para renovar a sua Diocese, o Cardeal interessou-se pela renovação do clero, refazendo o Seminário; com a Escola da Catedral procurou a renovação do laicado, criou a Rádio Notre Dame e investiu na televisão. Para comunicar o seu pensamento e convicções publicava um livro por ano, sendo o mais conhecido e mais traduzido, «Le choix de Dieu», publicado em 1987.
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Tuesday, August 7, 2007

Luís Lindington

Sempre alerta!

Completa-se a 1 de Agosto de 2007 um século de vida do Escutismo, a maior organização juvenil do mundo, presente em 250 países e com mais de 40 milhões de membros. Do companheirismo, aventura, natureza … e da actividade escutista em Portugal fala-nos Luís Lindington, chefe máximo do Corpo Nacional de Escutas (CNE).

Luís Lindington com 62 anos foi técnico oficial de contas do Banco de Portugal, encontrando-se na reforma. Fez a promessa escutista com 11 anos, em Lourenço Marques, Moçambique, onde vivia com os pais. Tornou-se, mais tarde, chefe dos “Exploradores” (jovens escuteiros dos 10 aos 14 anos) e quando regressou a Portugal, foi essa a secção que assumiu, em Coimbra.
Segue as pisadas de Baden Powell, que há cem anos deu início a um método educativo com pontos bem precisos: a formação do carácter, a habilidade manual, a saúde e a força física e o serviço ao próximo. Itinerário formativo vivido comunitariamente num clima de fraternidade e em contacto constante com a natureza, de abertura e de convivência com convicções religiosas e políticas plurais.
Entrar num grupo escutista é aprender desde muito jovem a ser autónomo, a sair de diante do computador ou do televisor e a mergulhar em bosques e serranias, a não pensar só em si próprios. Compreende-se assim actualidade e a força da proposta escutista para as crianças e jovens do terceiro milénio.
Com 100 anos, o Escutismo continua na “moda”, contando em Portugal com 67 mil associados. “O que me preocupa – afirma o Chefe Nacional – é que todos os anos entrem dez mil novos elementos no movimento, mas haja quase outros tantos que saiam, nomeadamente nos escalões etários mais velhos. O escutismo continua a atrair muitos jovens, mas depois tem dificuldades em retê-los”.
A pedagogia escutista passa pelo jogo com regras, onde cada um tem um papel que é essencial ao sucesso da sua equipa. “O que o Escutismo propõe – afirma Luís Lindington - desde a sua fundação é que os jovens aprendam fazendo, desenvolvendo os seu próprios projectos em contacto com a natureza, o espaço privilegiado de afirmação da sua personalidade. Isto funciona em todas as idades. Seja para Lobitos, que têm entre 6 e 10 anos. Exploradores, entre 10 e 14. Pioneiros, dos 14 aos 18. Ou Caminheiros, entre os 18 e 22. A auto-educação é transversal, nunca está desactualizada”.
Tudo começou, há um século, na ilha de Brownsea, na baía de Poole Harbour, mesmo em frente do Canal da Mancha, quando Baden Powell, na altura com cinquenta anos, e depois de uma longa experiência militar sobretudo na África do Sul, realiza com 20 jovens de diversas classes sociais, o primeiro acampamento. Os 20 jovens realizam a sua “promessa” no dia 1 de Agosto de 1907.
O Escutismo chegou a Portugal em 1913. Hoje, existem mil agrupamentos em Portugal, procurando viver em grupo, pois “o escutismo quer que cada indivíduo se liberte, se conheça a si mesmo, para fazer as suas opções em consciência”.
Com a “promessa escutista” é pedido a cada jovem que se aperfeiçoe cada vez mais. Assim, a “promessa” nunca envelhece, renova-se constantemente à medida que cada jovem escuteiro vai crescendo.
Com cem anos de vida, a maior organização juvenil do mundo – e de Portugal – continua bem activa, a percorrer caminhos que antes só os pastores trilhavam e a edificar cidades de madeira, onde antes só se viam ervas daninhas.

N.M.

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Thursday, July 5, 2007

Os Figomaduro

Há seis anos perderam o pai. Agarraram-se à música para sobreviver. Com o tempo, cantar e tocar tornou-se fonte de alegria e modo de vida.

Maria Madalena Jalles Vidal, última de 11 irmãos, nasceu com o dom da música. Estudou línguas, trabalhou em relações internacionais, teve quatro filhos, mas nunca largou a música que cultivava como passatempo preferido.

Os quatro filhos herdaram da mãe o talento musical, que aperfeiçoaram desde os três anos em escolas de música e conservatórios. Uma oportunidade que a mãe nunca teve e que lhes permite dominar instrumentos de percussão, guitarras clássicas, flautas transversais e violinos.

Os Jalles Vidal passaram por uma duríssima prova. Pouco depois do nascimento de João Maria, o pai, Paulo José Vidal foi vítima de um ataque cardíaco. “Foi muito duro”, confessa Madalena, que acredita voltar a ver a família reunida noutro lugar. Ainda hoje, tal como quando o pai chagava tarde do trabalho, os Jalles Vidal juntam-se para rezarem pelo “seu anjo da guarda, que continua a zelar pela família”.

A “necessidade de sobrevivência” fê-la “seguir o coração”. Madalena agarrou precisamente a música para unir a família e com o tempo e perseverança foram desenvolvendo os talentos musicais.

Um dia e após muitos concertos musicais improvisados e executados em ambiente familiar, Maria Madalena pensou que poderia levar a sério as potencialidades da família. Hoje, tocam em qualquer tipo de eventos, religiosos (casamentos, baptizados, etc.) ou não e estão a preparar a constituição de um empresa. É esta actividade que lhes permite pagar as contas.

Trata-se de um projecto musical que a mãe, hoje com 42 anos, gosta de chamar “projecto de educação”, pois não se reduz à música. Por exemplo, os seus conhecimentos e dotes poliglota procura que contagiem os filhos, mantendo constantemente conversas em inglês ou em francês, quando a família se reúne na sua casa em Alcochete. Assim, os “Figomaduro”, nome dado ao grupo por ser o local em que conheceram pessoalmente João Paulo II, cantam em português, latim, inglês, francês, alemão, italiano e espanhol. E “não há nada que eles cantem que não saibam o que significa”, assegura a mãe, porque “em cada música há uma história que quem canta tem de saber contar”.

Fora da música, a família mantém-se no mundo das artes. Luísa tem gosto pelo teatro, Maria e Madalena são dançarinas e o benfiquista João Maria, que teve a honra de ser baptizado pelo Papa no aeroporto militar de Figo Maduro, explora no Alcochetense os dotes de futebolista.

Sinal de que a música continuaria a ser a “fonte de alegria” dos Jalles Vidal seria ter no futuro no palco também os netos.

N.M.

(Tabú (Sol) 40 (2007)

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